Redação
13 de Janeiro de 2011
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Sigrid Vásconez é uma socióloga que por mais de 15 anos se dedicou a temas ambientais em organizações da sociedade civil no Equador. Entre outras atribuições, foi diretora no Fundo Ambiental Nacional, coordenadora da Iniciativa Plano Verde na Fundação Pachamama, e agora diretora de Ambiente e Sociedade do Grupo FARO. Professora na Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (FLACSO Equador), ela é convidada de OEcoAmazonia para apresentar a ARA (Articulação Regional Amazônica), estratégia criada com apoio da Fundação AVINA, em 2007, que tem permitido a execução de ações voltadas ao desenvolvimento sustentável e à conservação da Amazônica de forma integrada até agora por seis dos nove países que abrigam a maior floresta tropical do planeta.
Em quase 4 anos de existência, a ARA conseguiu articular 34 organizações de diferentes setores da sociedade civil, formou grupos de trabalho importantes como de monitoramento do fogo na Amazônia, além dos focados em projetos de REDD+ . Está a cada dia obtendo novos êxitos, mas ainda almeja se consolidar com estrutura de governança que permita sustentabilidade em longo prazo e a obtenção de maior posicionamento no debate político sobre o futuro da Amazônia. Em meados de 2011, uma novidade: a ARA lançará um relatório inédito sobre como está a Amazônia em relação aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Confira a entrevista completa abaixo.
Como você começou a trabalhar junto a ARA?
SV: Fui procurada pela Fundação AVINA no ano 2008, pois estava coordenando a iniciativa Plano Verde junto a Fundação Pachamama, uma proposta para conseguir a não expansão da fronteira petroleira para o centro sul da Amazônia equatoriana. Grande parte da minha carreira foi construída na Amazônia equatoriana, tanto na região mais oriental, principalmente ao redor do Parque Nacional de Yasuní, como no sul do Equador. Por causa dessa minha trajetória, tive a oportunidade de conhecer a iniciativa ARA e a partir daí trabalhei na consolidação da rede no nível nacional. Hoje em dia, ARA Equador tem mais de 11 organizações integrantes.
Como tudo começou? De quem foi a ideia inicial de formar a ARA?
SV: No último trimestre de 2007, líderes de organizações da sociedade civil que trabalhavam na bacia amazônica se reuniram em São Paulo com o apoio da Fundação AVINA e concordaram em estabelecer a ARA – uma rede de caráter regional com nódulos em cada um dos países que formam a Amazônia. O objetivo da ARA é somar esforços para combater o desmatamento na região e favorecer o manejo sustentável. De forma especial, o acordo foi trabalhar uma visão pan-amazônica para combater o desmatamento, gerando conhecimento regional, facilitando o intercâmbio e a influência nas políticas públicas. Foram determinadas três linhas prioritárias de trabalho: Transparência e governança florestal; Nova Economia da Floresta e Valorização Cultural. Atualmente formam parte da ARA: Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Brasil, seis dos nove países que formam a bacia amazônica.
De que maneira as organizações que compõem a ARA foram escolhidas?
SV: Com a ajuda do trabalho da Fundação AVINA foram identificados líderes e organizações que compartilhem a visão de gerar uma rede pan-amazônica. A partir daí, foram formados nódulos nacionais – ARAs Nacionais. E aos poucos elas foram convidando outras entidades, setor empresarial, instituições de pesquisa e universidades para fazer parte da rede. Cada ARA Nacional estabeleceu a partir de 2008-2009 mecanismos de governança para incorporar membros e aliados, procurando sempre que os participantes compartilhem os princípios da pluralidade, o intercâmbio e a sustentabilidade.
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“Os problemas da Amazônia não se resolvem pensando nacionalmente. O manejo da bacia vai além das fronteiras. Mas esforços de integração amazônica desde o espaço governamental são muito deficientes. No entanto, na região existem múltiplas experiências e conhecimento acumulado nas organizações da sociedade civil. Ao trabalhar na sua articulação estou convencida que podemos promover as mudanças que são necessárias.”
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Como é o trabalho cotidiano das organizações integrantes na ARA?
SV: A rede em nível regional trabalha baseada em objetivos estabelecidos no plano de trabalho para o ano. O mesmo acontece em cada ARA Nacional, que tem, entretanto, independência de formular seu plano de atividades de acordo com as necessidades e oportunidades de cada país. O plano de trabalho da ARA Regional é elaborado após discussão dos membros do Comitê Diretivo, formado por representantes de cada uma das ARAs Nacionais e é coordenado por uma Secretaria Técnica. Esse plano define ações prioritárias, atualmente realizadas por grupos de trabalho.
E quais são as áreas prioritárias de atuação da ARA hoje?
SV: No contexto de uma
Nova Economia para a Floresta temos um grupo sobre Mudanças Climáticas e Serviços Ambientais, baseados nas oportunidades e desafios de projetos de REDD (Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação) e também um grupo sobre fogo. No caso da
Transparência Florestal, existe um terceiro grupo de trabalho que gera relatórios nacionais e um regional sobre o estado da Amazônia em relação aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) propostos pelas Nações Unidas. Um quarto grupo de trabalho, que é liderado pela Secretaria Executiva (SE) e o Comitê Diretivo da ARA, procura fortalecer e consolidar a estrutura de governança e de tomada de decisões da rede (Grupo de Governança).
Os grupos, tão diversificados, devem oportunizar uma incrível troca de experiência entre os países amazônicos. Os intercâmbios também são foco de atenção especial?
SV: Sim, existe um Fundo de Intercâmbio de Experiências, que canaliza recursos dos principais aliados da ARA Regional (Fundação AVINA e Fundação Skoll) para que os membros das ARAs definam atividades para ser desenvolvidas durante o ano que nutram o intercâmbio e o conhecimento. Esta é uma forma de gerar novas capacidades e oportunidades para crescermos como rede. Desde 2009, o fundo permitiu a realização de mais de 10 intercâmbios, como a participação em um curso de REDD organizado pelo IDESAM, em Manaus, uma reunião estratégica entre ISA, GAIA e Wataniba para consolidar a visão 2030 do Noroeste Amazônico e o papel de Canoa; um curso de comunicação para jornalistas na Estação Científica Tiputini, no Parque Nacional Yasuni, Equador, a participação na Plenária do Fórum Amazônia Sustentável, entre outros.
Qual é a relação da rede com os governos e instituições públicas nos países amazônicos?
SV: O objetivo da ARA Regional é influenciar políticas públicas nos governos que fazem parte da bacia amazônica. Em alguns casos, como na ARA Colômbia, o governo – através do Instituto Nacional de Parques – é parte da rede. Porém, cada ARA Nacional tem autonomia em sua organização e composição para incorporar a flexibilidade nas estratégias de aproximação às entidades governamentais. No caso do Equador, ARA apoiou o Ministério do Ambiente no mapeamento de atores a serem envolvidos na Estratégia Nacional REDD+, e assim contribuir para que seu desenho e possível implementação fossem mais participativos.
O que te motiva a trabalhar junto a ARA?
SV: Os problemas da Amazônia não se resolvem pensando nacionalmente. O manejo da bacia vai além das fronteiras. Nesse sentido é vital trabalhar em uma articulação pan-amazônica, já que compartilhamos os mesmos desafios – os governos não consideram a Amazônia como uma região que precisa de políticas coerentes que facilitem seu desenvolvimento sustentável. Os esforços de integração amazônica desde o espaço governamental são muito deficientes. No entanto, na região existem múltiplas experiências e conhecimento acumulado nas organizações da sociedade civil. Ao trabalhar na sua articulação estou convencida que podemos promover as mudanças que são necessárias! É muito enriquecedor conhecer as experiências de outros países e ao intercambiar e nos conhecer se multiplicam as oportunidades de incidência. Ser parte da ARA me fez pensar no importante do trabalho colaborativo.