Já não há mais dúvidas razoáveis sobre o fato de que muitas regiões de baixa latitude estão se tornando cada vez mais ressecadas e mais quentes. Mesmo assim, nada disso serve para preparar os 21 milhões de habitantes que ocupam só a Amazônia brasileira, para ver vastas regiões da maior floresta tropical do mundo serem consumidas pelas chamas. Não faz muito tempo que se pensava que florestas tropicais úmidas eram essencialmente imunes a perturbações causadas por fogo graças ao alto índice de umidade da sua vegetação rasteira protegida sob a densa folhagem de cobertura das copas das árvores, porém, as intensas secas de 1997-98 e depois em 2005 e 2010 rapidamente mudaram essa percepção. No entanto, tais “mega secas” foram causadas por eventos climáticos de grande escala diferentes e provavelmente interativas com a importância de um elevado aquecimento da superfície do oceano Atlântico — que também alimenta os furacões que afetam o Caribe e o sudeste dos EUA — superando cada vez mais os efeitos de seca causados por eventos do El Niño no Pacífico. Estas secas também estão se tornando mais frequentes e mais severas, gerando condições ideais para o surgimento de incêndios florestais recorrentes que afetam vastas áreas da floresta amazônica até então intocadas pelo fogo.

Mais uma vez, isto ficou óbvio em Agosto-Setembro último enquanto eu trabalhava em Alta Floresta, um município com 60 mil habitantes dedicado à criação de gado no estado de Mato Grosso. Cheguei ao norte do estado para testemunhar a pior seca e falta de água até onde a memória alcança, com cerca de 110 dias consecutivos sem chuva. Dois dias depois, o prefeito local me acompanhou até a maior vertente e reserva de água doce que abastece a demanda de 8.000 m3 de água só do centro urbano de Alta Floresta. Os rios perenes da represa de Mariana haviam secado e o reservatório inacreditavelmente encontrava-se completamente seco, necessitando de medidas urgentes e caras para regularizar o abastecimento pela primeira vez na sua história. Enquanto isso, incêndios florestais devastavam muitas outras regiões do Mato Grosso; Em um município vizinho, um incêndio de grandes proporções havia queimado completamente inúmeras casas, comércios, igrejas e escolas públicas como mais um aviso do que estava por vir. Mesmo assim, poucas pessoas chegam a considerar os serviços hidrológicos do ecossistema da cobertura de uma floresta tropical de amortecer condições climáticas extremas.

Em termos de sua própria viabilidade hidrológica, as florestas tropicais úmidas estão numa corda bamba. Dependendo das condições do solo, secas extremas podem rapidamente romper seu limiar de inflamabilidade, colocando em movimento um processo de realimentação positiva onde incêndios sem precedentes produzem incêndios subsequentes mais intensos. Há pouco na história evolutiva destes imensos ecossistemas florestais que os prepare para os pesados níveis de mortalidade de árvores aos quais provavelmente sucumbirão. Isto reduz dramaticamente o valor das grandes florestas como sendo tesouros de biodiversidade florestal primária e armazenadores de biomassa e carbono que, de outra forma, aumentariam ainda mais os gases do efeito estufa com secas ainda mais severas. Operações de madeireiras em florestas de mata antiga agravam ainda mais o ressecamento da vegetação rasteira pelos buracos deixados na cobertura das copas que estariam fechadas, aumentando a carga de combustíveis secos. A mega seca do ano passado é mais um lembrete. A situação da Amazônia e de outras regiões com florestas tropicais nunca esteve tão incerta. Vivemos na expectativa do que o próximo incêndio trará.


 
 
Carlos Peres é um conservacionista brasileiro, biólogo e Professor de Ecologia Tropical na Universidade de East Anglia.

Este artigo foi também publicado no The Independent
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