Existe um lugar na Terra onde a catarata mais alta do mundo despenca de quase mil metros, um mundo mágico e novo rodeado por pré-históricos chapadões chamados localmente por “
tepuyes” onde habitam algumas criaturas raras e misteriosas. Trata-se de um lugar que cativou e inspirou muitos expedicionários e aventureiros a explorar suas espessas florestas em uma busca ambiciosa por metais preciosos, alguns dos quais não puderam retornar jamais. Este maravilhoso lugar é o Parque Nacional Canaima, na Venezuela, localizado no Estado Bolívar, instaurado como parque natural no dia 12 de junho de 1962 e declarado Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco no ano 1994 devido à alta diversidade biológica e cultural que abriga.
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O grande Canaima, como os venezuelanos o chamam, é considerado a maior reserva natural da Venezuela e a sexta a nível mundial. Com uma extensão de 30 mil km², este parque estende-se até a fronteira com Guiana e Brasil ocupando 3,27% do total do território venezuelano. Canaima é considerado ainda para a Ciência como uma das florestas menos estudadas da Amazônia, que contém algumas mostras de biodiversidade assombrosas, como os chapadões mais antigos da Terra, que datam do Pré-Cambriano. Na língua dos indígenas Pemón, elas significam “Montanhas”.
Os
tepuyes são chapadões com paredes verticais e cumes praticamente planos, formados por arenito talhado pela erosão e intempéries, em cujos platôs encontram-se vestígios muito importantes para a geologia, como fósseis de animais e vegetais que revelam como era a vida na Terra milhões de anos atrás.
A origem desses chapadões remete a mais de 3 milhões de anos atrás, na época em que América e África formavam um mega continente. Após o processo de separação de ambos, essas mega estruturas naturais se formaram, algumas das quais chegam a alcançar uma altura de até 2810 metros. Uma mostra disso é o Monte
Roraima, um dos
tepuyes mais altos entre os 115 que estão em Canaima.
Entre os
tepuyes mais conhecidos estão o
Auyantepuy com uma altitude de 2535 metros e uma superfície de 700 km2. É dali que se desprende o famoso Salto Ángel. Outros como o
Kukenan,
Chimanta e o
Roraima conseguiram ser escalados até seus cumes, onde foram realizados descobertas extraordinárias de vida animal e vegetal endêmicos, como a rã negra (
Oreo frainella) muito estudada pelo biólogo Adrien Warren (
The Lost World,
Venezuela´s Ancient Tepuys). Esta é uma espécie considerada muito mais antiga que os dinossauros e cuja origem é atribuída a quando os continentes ainda estavam unidos, já que se assemelha mais às espécies de rãs africanas que às da América do Sul. Tal espécime foi muito inteligente para sobreviver vários milhões de anos. Também foram encontradas várias espécies de orquídeas, bromélias e plantas “carnívoras” como a
Nepenthes cincta, cujas cores verdes e vermelhas atraem os insetos que logo ficam presos e são digeridos lentamente. Frente a estas importantes descobertas, a Ciência se questionou sobre que outras espécies mais poderiam ser achadas sobre os inexplorados
tepuyes. Mas esta resposta só o tempo e a destreza humana poderão dar. Enquanto isso, essas misteriosas montanhas continuarão escondendo vários enigmas por decifrar.
Os Pemón
Estes são o maior grupo indígena do Parque Nacional Canaima e do município da Gran Sabana. Calcula-se que sejam aproximadamente 30 mil indivíduos, distribuídos entre Venezuela, Brasil e Guiana. Desta etnia se diferenciam três grupos principais que são: os
Taurepan, que habitam a fronteira entre Venezuela e Brasil, os
Arekuna, encontrados ao noroeste de Roraima e no Vale de Kavanayén, e finalmente os
Kamarakoto que vivem a oeste do rio Karuay, Caroní, a Paragua e no vale de Kamarata. Jess, o guia que acompanharia nossa travessia, pertencia ao grupo dos
Kamarakoto.
Os Pemón moram em casas construídas com paus e barro cujos telhados são elaborados com folhas secas das palmeiras. Entre suas principais atividades de subsistência estão o artesanato e o ecoturismo, já que fabricam cestas ofertadas aos turistas que visitam a zona, e também se lançam como guias turísticos junto às diferentes empresas de turismo do lugar. Desta maneira, antes que Canaima fosse vista como destino turístico internacional, esta tribo se dedicava à caça, pesca e agricultura como fonte de subsistência. Um dos alimentos principais que cultivam era a mandioca, considerada sua base alimentícia, da qual obtém alguns derivados como o “casabe”, um tipo de pão de textura seca bastante fina que é compartilhado com toda a família. Este é um produto típico que acompanha a comida venezuelana e se pode encontrá-lo nos diferentes mercados de cidades como Caracas, Valencia o Cidade Bolívar.
Algo muito interessante que pude presenciar na minha breve estadia com os Pemón foi a relação intrínseca que eles têm com o meio ambiente. Sem ares de modernidade e com muita bonança me falaram “
...este lugar (Canaima) é o mais belo da Terra, é nossa lar e nós cuidamos dele, todos os seres humanos deveriam cuidar da natureza já que é a casa de todos, não é certo?...”, me expressou nosso guia Jesus com um notável orgulho em seus olhos por ser um habitante de Canaima. Tais palavras com angustia me fizeram notar como nas grandes cidades, por estarmos mais preocupados com o desenvolvimento econômico e tecnológico, temos deixado de lado toda reverência pelo mundo natural.
Rio Carrao
Concluída nossa visita a os Pemón, embarcamos em uma curiara para iniciar a navegação pelo rio Carrao, que nos levaria até o acampamento
Auyantepuy. A
curiara é uma rústica canoa fabricada manualmente com madeira que é extraída de algumas árvores da zona. É considerado um símbolo muito importante para a etnia Pemón, já que é seu único meio de transporte através do qual podem chegar à maioria das comunidades. Com cerca de um metro de espessura e quase dez de largura, esta embarcação é muito similar às que utilizam outras tribos amazônicas no Brasil e Peru.
Algo muito particular do carrao é a cor ocre vermelho de sua água em diferentes setores do rio, que é ocasionado pelo tanino, um ácido que desprende de algumas folhas e raízes após caírem na água e se decomporem. Desta maneira, este é um ecossistema aquático muito importante onde habitam uma grande variedade de peixes e anfíbios.
Durante o percurso em
curiara se observa em ambos os lados do rio uma vegetação densa e exuberante muito característica das florestas tropicais amazônicas onde é possível notar alguns animais selvagens que nos olham curiosamente desde a copa das árvores, como o macaco uivador, macaco aranha, esquilos, lontras e uma grande variedade de aves aquáticas (garças, martim pescador, etc.) que curiosos por nossa presença dirigem indiscretamente seus olhares causando uma algazarra que se escuta à distancia. É como se estivessem avisando aos outros animais sobre a presença de intrusos no seu território. Não há dúvida que por onde observamos, Canaima não deixa de assombrar-nos com sua incrível biodiversidade.
O Salto Ángel
Terminada a navegação pelo carrao se chega ao acampamento
Auyantepuy ou “
Montanha do diabo” na língua dos Pemón. Dali já podemos ver o espetacular Salto Ángel, que se deixa cair desde uma altura de 979 metros. Esta catarata obteve seu nome em honra ao seu descobridor, o piloto e excursionista Jimmy Angel quem a descobriu acidentalmente em 1935, atraído pelas diversas historias de exploradores que haviam encontrado ouro em alguns rios de Canaima. Angel optou pela louca ideia de pousar seu avião sobre o
Auyantepuy. Decisão que quase custou sua vida, e a de seus acompanhantes, que depois de percorrer o lugar se deram conta que sua busca havia fracassado. Com o motor do avião destruído, e tristes por não encontrarem ouro, mas felizes de estarem com vida, esses intrépidos aventureiros demorariam 11 dias para descer deste
tepuy.
Votado em 2009 como uma das sete maravilhas naturais do mundo, o Salto Ángel, é considerado atualmente como uma das maiores atrações turísticas da Venezuela e a nível internacional deslumbra com sua beleza todos os visitantes que chegam até aqui. Inclusive, foi a fonte de inspiração de um desenho animado da Disney, chamado “UP”, baseado na historia de um velhinho cujo sonho era poder elevar sua casa com balões e pousar sobre o Salto Ángel.
As florestas tropicais amazônicas como Canaima são os legados mais importantes que tem a humanidade e chegou o momento de reconhecer sua importância. Ainda estamos a tempo de salvá-las de uma morte anunciada e de começar a dar valor às múltiplas funções ambientais que elas nos oferecem, como: a captura de carbono, o que ajuda a diminuição dos efeitos das mudanças climáticas, a regulação do clima, armazenamento de água, beleza cênica, lar de biodiversidade, ecoturismo, entre muitas outras.
Finalizada minha expedição a Canaima e de retorno à grande metrópole caraquenha, ficou dentro de mim um inquietante desejo de conquistar a floresta, algo que os Pemón chamam de “
la manigua”. No entanto, entendi que é a floresta que me conquistou, porque a lembrança de Canaima perdurará para sempre nos meus pensamentos.