Fabio Legarda
02 de Novembro de 2011
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Morei toda a minha vida em uma comunidade literalmente dentro da Amazônia equatoriana e lá cresci junto à minha família. Desde muito cedo, quando pude manejar um facão, passei a trabalhar com meu pai na plantação de café e cacau para poder viver. Durante o ensino médio estudei em uma escola tipo internato, morava lá por 21 dias e tinha uma semana de férias. Desde criança gosto de ciências naturais porque ao redor de mim existe selva. Aprendi mais sobre a relação vida e natureza, além da interação homem e natureza. Sempre que tenho tempo leio e converso com todo tipo de gente – é uma maneira de conhecer o mundo. Algumas vezes me sinto limitado para acessar informação ou encontrar livros e outras fontes porque em minha cultura não é costume ler.
Quando eu reflito sobre a situação da Amazônia penso que a saúde e a educação são bem limitadas nesta região. Acredito que, quanto maior a quantidade de gente educada, maior a consciência do que existe ao nosso redor, menores os problemas em relação ao desmatamento. A educação na região amazônica, por razões políticas e econômicas, sempre foi de má qualidade. Tanto no ensino fundamental como no médio minhas notas eram muito deficientes e eu tinha pouco interesse nos estudos devido à má qualidade de educação que ofereciam, além de não ter muitas opções já que minha família não tinha condições financeiras de me mandar estudar em outro lugar.
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Uma das experiências mais importantes que eu tive foi quando mudei de colégio e morei três anos em uma escola situada na floresta e com um sistema de educação completamente diferente do sistema público. Por esses anos convivi intensamente com estudantes de diferentes culturas da Amazônia e voluntários de outros países que davam aulas de inglês. Eu sinto que cresci interiormente e obtive ideias de diferentes pontos de vista que permitiram que eu mesmo me conhecesse melhor.
Apesar de ter vivido toda uma vida no meio da floresta, o valor que eu dava a ela não era o suficiente para me preocupar em conservá-la. A única coisa que eu sabia era que meu pai ia caçar e que devia derrubar as árvores para plantar e poder nos alimentar. Na escola onde eu fiz o ensino médio, chamada “Yachana”, aprendi que tudo na natureza tem importância. Por exemplo, que os cupins ajudam na degradação das árvores que caem e servem de adubo para outras árvores, que lagartas se alimentam de uma espécie determinada de planta, que se a planta que essas lagartas comem se extinguirem também as borboletas desaparecerão e, com elas, a polinização. Ou seja, tudo na natureza, por mais simples que seja, cumpre um papel muito importante.
Isso também tem acontecido com a maioria dos estudantes. Lá na escola tem uma filosofia que se chama “aprender fazendo”. Por ser um internato, tínhamos a seguinte agenda: às cinco e trinta da manhã estávamos de pé para fazer a limpeza do nosso quarto e também asseio pessoal; às seis tomávamos café; às seis e trinta nos reuníamos para receber instruções dos diretores para ir a campo para a prática das disciplinas agronomia, pecuária, microempresas e turismo.
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Cada semana todos os estudantes, em um sistema rotativo, atuavam em todas elas. Grande parte dos alimentos para a cozinha vinha do que se produzia em agronomia e pecuária - em agronomia plantávamos tomate, pimentão, feijão, cebola, arroz. Em pecuária criávamos frangos, porcos, peixes e galinhas. Em microempresas fazíamos artesanatos e estampávamos camisetas para vender aos visitantes. Em turismo visitávamos o hotel que faz parte da mesma fundação que cuida da escola para aprendermos sobre hospitalidade, gastronomia e serviços. Ao meio dia almoçávamos e à tarde tínhamos aulas desta vez focadas na parte teórica de tudo o que havíamos aprendido na parte da manhã, além de estudarmos as disciplinas regulares.
Todas essas experiências mudaram a minha vida 180 graus porque, depois de terminar o colégio, ganhei uma bolsa de estudos na Universidad San Francisco de Quito, do Equador, além de passar a escrever regularmente para uma publicação chamada
Our Planet. Todos esses sonhos se tornaram realidade graças à
Fundação Yachana.
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Fabio Legarda tem 20 anos, é estudante de administração na Universidad San Francisco de Quito, do Equador. Nasceu na comunidade ribeirinha Huaticha e também sonha em ser jornalista. |