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Foto: Marcos Amend
O curupira é um ser lendário. Tradicionalmente é caracterizado como um anão peludo que vive na floresta e se dedica a proteger os animais selvagens. Ele tem os pés virados para trás e assim confunde o caçador, que segue seus rastros na direção contrária. O curupira é danado, até malvado dizem, sempre disposto a sacanear as pessoas na mata. Muitos têm medo dele e, só de ouvir seu assobio à noite, ficam preocupados.

Sou ornitólogo, isto é, um cientista que estuda pássaros. Ando muito no interior, nas matas mais afastadas, na tentativa de catalogar todo tipo de pássaro que vive nas várias regiões amazônicas. Presto muita atenção nos sons da floresta, em tudo quanto é barulhinho de ser florestal. Isso porque todo tipo de pássaro faz um som diferente, e é muito mais fácil ouvir o canto de um pássaro do que enxergar o cantor. Quando eu já conheço o canto, meu trabalho é fácil—é só anotar o nome do bicho que ouvi. É quando escuto um som desconhecido que a coisa complica. Aí, tenho que andar atrás daquele barulho até descobrir que tipo de animal fez aquilo. Saio até a noite, quando cantam as corujas e os bacuraus. Foi no percorrer deste trabalho que conheci um curupira.

Logo que comecei a estudar aves nesta região, já há vinte e tantos anos, conheci um som noturno que escutava em noites de luar, mas sem saber de onde vinha. É um assobio longo e melancólico, descendo em tom, como faz o barulho de uma bomba caindo do céu antes de detonar, nos filmes de guerra: “fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiuuuuuuu.”  Canto gravado pelo autor

Perguntava para os colegas—pesquisadores e mateiros—e ninguém tinha certeza do que era. Um sugeriu que fosse a voz do pavãozinho-do-pará, um pássaro que anda no chão e tem um canto assobiado. Eu não conhecia o pavãozinho na época, então quando escutava o som eu saia na floresta à noite procurando perto do chão com a laterna. Eu assobiava para chamar o bicho misterioso, mas parecia que nunca chegava perto, e nunca consegui vê-lo.

Meu companheiro de trabalho na época, Jairo Miranda Lopes, me avisou, “Aquele não é o pavãozinho, Mario. Eu fui criado no interior do Pará e conheço muito bem o pavão; sei até como é o ninho dele; sei que ele é mais de área de várzea e de beira de rio ou lago, e não da mata de terra firme. A voz dele é diferente. Agora, não sei que bicho é esse que está cantando, talvez uma coruja ou algo assim. Mas o pavãozinho não é.” O Jairo era um excelente assistente de campo e conhecia muita coisa, e eu acreditei nele.

Assim passaram uns dois anos. Até que um dia, na boca da noite, a lua quase cheia já alta no céu, eu escutei de novo aquele canto. Eu estava no acampamento na beira da mata, e perguntei para o Jairo, que já estava preparando nosso jantar, se ele tinha ouvido. “Sabe Jairo, aquele que você insiste que não é pavão,” e eu imitei o som, assobiando.

No instante, posou, na ponta de um galho seco, bem alto numa árvore grande na beira do acampamento, um pássaro. Ele cantou, aquele assobio triste e assombroso. Na luz fosca do anoitecer, não deu para ver muita coisa. Mas ele continuou cantando no mesmo galho, e quando o céu ficou mais escuro minha lanterna o iluminava bem. Vi no binóculo que era um pequeno urutau, do tamanho de um bacurau, escuro com uma mancha branca na asa. Nada que era conhecido da região amazônica!

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Urutaus são aves noturnas que lembram corujas. Seus olhos enormes enxergam bem à noite e refletem vermelhos no foco de uma lanterna. Essa e as seguintes fotos mostram a "mãe-da-lua" (Nyctibius griseus), uma espécie de urutau um pouco maior do que a nova (foto pelo autor).
 
Urutaus são aves noturnas, da família que inclui a “mãe-da-lua” ou urutaí. Lembram corujas, só que não caçam com as garras e só comem insetos. Na realidade, são mais próximos aos bacuraus (ou curiangos). Os dois caçam voando, pegando insetos voadores, como besouros e esperanças, com sua boca larga feito boca de sapo. Seus olhos brilham grandes e vermelhos na luz de uma lanterna. A maior diferença entre o bacurau e o urutau é que o bacurau senta no chão ou deitado num galho, enquanto o urutau pousa em pé, na ponto de um galho. De dia, um urutau assustado no seu poleiro estica seu corpo, o bico apontado para cima, para parecer uma extensão do galho onde senta, e sua coloração camuflada imita a casca de uma árvore. 

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Mas mais revelações me aguardavam. Aquela noite, a gente ainda comemorando nossa descoberta surpreendente, o Jairo abriu o jogo para mim. Ele falou que ele e muitas pessoas já conheciam aquele canto, sem nunca ter visto o cantor. Disse que o pessoal fala que é o curupira, e que ele conhecia um rapaz que não conseguia dormir enquanto escutava o som, de tanto medo que sentia.

Anos depois, no interior do Pará, eu assobiei este mesmo canto para um senhor que mora perto de uma mata grande, e perguntei se ele o conhecia. Os olhos dele brilharam ao escutar a imitação: “Mas claro que conheço. Cansei de ouvir isto, mais em noites de luar.” “E o que é que faz este som?” perguntei. “Bom,” disse ele, com um pouco de vergonha transparecendo no rosto. “A gente diz que é o curupirinha. Não sei se acredito. Mas é isso que o pessoal fala.”

Ao longo dos anos eu já encontrei este pássaro em vários lugares no Amazonas, de Borba a Barcelos, e no Pará também. Colegas de pesquisa agora acharam ele no Acre e até no Peru e nas Guianas. Um pássaro que, até poucos anos atrás, era desconhecido pela ciência agora parece ocorrer na Amazônia inteira. E em tudo quanto é lugar onde eu pergunto para os moradores interioranos se eles conhecem o canto, a resposta é sempre a mesma. Conhecem sim, e dizem que é o curupira.

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Para mim esta história teve duas lições. Uma foi que o caboclo do interior tem muito conhecimento que pode me ajudar em meu trabalho. Só por arremedar o canto desse pássaro para um bom conhecedor, posso descobrir se a espécie ocorre na região. A outra lição foi que ainda tem muita coisa a ser descoberta nesta Amazônia imensa.

Essa ave “nova,” uma espécie não descrita ainda**, foi encontrada nas matas perto de Manaus. Ela passou despercebida por séculos de estudos científicos, porque só sai a noite e vive na copa das árvores mais altas das matas intocadas. O único conhecimento dela foi um conhecimento folclórico que atribuia seu canto a uma lenda. Imagina quantos outros casos desses ainda esperam ser desmistificados.

E o curupira mesmo? Será que existe? Não sei (e talvez nunca saberei, pois minha pesquisa é outra). Sei que eu gostaria de pensar que tem alguem dedicado a lutar pela proteção de todos os seres da floresta. Sei também que nunca vi um anão peludo na mata com os pés virados para trás. Mas já vi quem faz o som que muitos atribuem ao curupira, e é um pássaro. Agora, se esse pássaro servir para chamar atenção para a maravilhosa variedade de animais e plantas que tem na mata amazônica, muitos ainda pouco estudados, e assim de concientizar o povo a proteger as matas onde vivem essas criaturas todas, então, de certa forma, ele é um curupira. Não é?

*Texto publicado pela primeira vez na Gazeta Mercantil de Manaus, em 1999.
Cantos da Amazônia

Foto: Cristiano Mariz

Mario Cohn-Haft é Pesquisador e Curador da Coleção de Aves do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) em Manaus. Estuda a história natural da Amazônia brasileira desde 1987.


Esta coluna apresenta a Amazônia pelos olhos e ouvidos de um biólogo especializado em pássaros. Cada crônica conta algum aspecto da história natural da região, desde as vidas peculiares de uma determinada espécie de animal ou planta, até comentários sobre os desafios de e as ameaças à conservação.
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