Vandré Fonseca
25 de Agosto de 2010
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Manaus - Nesta época do ano, fim do verão do hemisfério norte, casais de águias-pescadoras
(Pandion haliaetus) começam a abandonar os ninhos no nordeste dos Estados Unidos para uma longa viagem à territórios mais quentes no Caribe e América do Sul. São aves grandes, chegam a dois metros de envergadura, e vivem por volta de 27 anos. Recebem vários nomes: em inglês, osprey; em português, gavião-caripira, guincho, gavião-papa-peixe... Duas ou três semanas após o primeiro voo, já são capazes de buscar peixes em lugares distantes e retornar ao ninho.
Link para ouvir vocalização da águia-pescadora
Nas áreas mais quentes, elas permanecem geralmente até o mês de março, quando termina o verão por aqui. Viajam entre 200 e mil metros de altitude, entre 30 e 40 Km/hora. Algumas delas serão acompanhadas via satélite por pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte, em Charlotte. As escolhidas carregam um transmissor, que funciona com energia solar, e manda informações diárias para os cientistas.
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Um dos responsáveis pelo o projeto, o biólogo Rob Bierregaard, veio ao Brasil participar de um encontro de ornitologia e, antes, fez uma palestra sobre o monitoramento das águias-pescadoras para pesquisadores e estudantes de pós- graduação em Manaus. O biólogo viveu no Brasil no final da década de 70, quando foi o primeiro diretor do Projeto de Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais e fez uma apresentação em português, com muito bom humor, sobre o monitoramento das águias.
Os estudos demonstraram que as fêmeas são as primeiras a partir e as últimas a voltar. São elas também que viajam a lugares mais distantes. Elas chegam mais ao sul do que os machos. Eles permanecem mais tempo perto dos ninhos, para garantir o território e evitar invasores. “Os machos voltam mais cedo para reclamar o território”, diz Rob Bierregaard. No próximo ano, os casais se encontram no mesmo lugar onde estiveram no ano anterior. Costumam se acasalar sempre com os mesmos parceiros, ano após ano. Mas no caso de morte, o sobrevivente encontra outro par. E o ciclo de vida da águia-pescadora continua.
Graças ao trabalhos dos pesquisadores da Carolina do Norte já se conhece bem as rotas de migração destas aves ao longo da costa leste dos Estados Unidos, Caribe e Amazônia. Um trajeto ainda desconhecido pelos gaviões jovens. Eles já fazem voos regulares a distâncias consideráveis. Um indivíduo que estava sendo monitorado, saiu de uma ilha na Costa Atlântica e passou uma temporada próximo aos Grandes Lagos. Mas a viagem que iniciam agora, rumo ao sul, é inédita e perigosa. De cada dez jovens águias que migram pela primeira vez, apenas duas retornam ao lugar onde nasceram. Segundo informações de Bierregaard, 66% destes gaviões morrem no primeiro ano de vida. No segundo ano, a mortalidade é de 22%.
Os jovens vão passar dois invernos no sul, e só depois de 18 meses retornam, para ocupar um novo espaço na América do Norte. Se alguma águia pescadora for vista no Brasil após o mês de abril deve ser um jovem que vai passar o ano por aqui. Depois de mais esta estação, deverá retornar ao lugar de nascimento. Retorno que para os jovens será de grande importância, servirá como aprendizado de um caminho mais seguro a ser utilizado na próxima migração. Mas as águias não seguem uma rota exata todos os anos. Na verdade, elas vão na mesma direção, mas de um ano para outro o caminho pode ter centenas de quilômetros de desvio. Mas o destino é sempre o mesmo. “Eles vão para o Sul, se puderem pela terra. Se não puderem, vão para o sul de qualquer jeito”, afirma com muito bom humor Bierregaard.
Quando vieram, as inexperientes águias voaram instintivamente em direção ao sul, sem conhecer nada, sob influência de correntes de vento, e se depararam com centenas de quilômetros de Oceano pela frente. Viajando entre 30 e 40 quilômetros por hora, velocidade comum para estas aves, encontraram poucos locais para pouso ou descanso, um caminho bem ao leste daquele utilizado pelos mais experientes, que seguem a costa e aproveitam as ilhas de Cuba e Hipaniola (Haiti e República Dominicana) para fazer a ponte entre os continentes.
São animais solitários. Não voam em bando, nem mesmo em pares. Mas são bem espertas na hora de se alimentar. “Se eles encontram outra ave carregando um peixe que forma cardume, então seguem na direção. Mas se for um peixe que não forma cardume, não ligam e continuam sua jornada”, conta Bierregaard. Como os gaviões-caripiras diferenciam os peixes? Ainda não se sabe. Mas qualquer peixe com cerca de 20 centímetros ou mais que esteja a até um metro de profundidade pode ser surpreendido pelo mergulho e pelas garras deste gavião.
Durante o caminho, as águias se alimentam quando podem. Há relatos de uma águia migrando no meio do oceano, carregando um peixe. “Como se levasse um sanduíche para comer mais tarde”, brinca Bierregaard. Além da extensa viagem, que em alguns casos, chega a 20 mil quilômetros de distância, há outros perigos. O biólogo americano conta que quatro águias pescadoras foram mortas a tiro na Ilha Hispaniola. “As pessoas não conhecem e acham que ela ataca as galinhas, aí atiram”, lamenta.
Nem todas as águias pescadoras fazem este trajeto. A ave de rapina, encontrada em quase todos os continentes, com exceção da Antártida, vive onde pode encontrar peixes para se alimentar. As da Europa, buscam áreas mais quentes na África. As do Oeste Americano, a América Central. As do sul dos Estados Unidos, viajam pouco. E na Austrália, estas águias não migram.
Depois de sofrer um grande declínio na população, na décadas de 50 e 60, devido ao uso do DDT, a população de águias pescadoras está crescendo nos Estados Unidos. Cada fêmea pode botar, por período de reprodução, até dois ovos. Mas a média de reprodução é de 1,2 a 1,3 filhotes por casal, o que garante o crescimento populacional.
Há muito o que se saber sobre ao gavião-caripira, como por exemplo, porque na América só fazem ninhos no Hemisfério Norte? Acredita-se que seja devido à abundância de peixes no período mais quente do ano. Mas se os satélites já ajudaram a saber bastante sobre a migração, eles ainda ensinaram pouco sobre a ecologia destes animais.
Link para mais informações sobre águias-pescadoras:
http://www.osprey.com
http://www.peregrinefund.org/explore_raptors/osprey/osprey.html