Vandré Fonseca
23 de Julho de 2010
O número de filhotes de peixe-boi que chegaram ao Instituto de Pesquisas da Amazônia em sete meses deste ano já se iguala aos resgates de todo o ano passado. Foram quinze animais no ano, antes que o mês de julho tenha acabado. Há quem considere uma boa notícia, um pequeno e cativante animal sendo trazido nos braços de um tratador para os tanques do Laboratório de Mamíferos Aquáticos. Mas a cena significa a chegada de um novo órfão, em risco de morrer e que, possivelmente, nunca mais volte para a natureza. Se o filhote refugiado dos rios sobreviver, já é um consolo.
“Tem o lado positivo, porque pode significar mais consciência, resultado do efeito conscientizador ou da fiscalização mais efetiva, mas pode ser negativo. Espero que não seja resultado do aumento da caça”, afirma a bióloga Isabel Manhães, da Associação Amigos do Peixe-boi da Amazônia.
Dos quinze resgatados, três morreram apesar dos cuidados recebidos no Inpa. A bióloga ainda estuda as razões que levam estes filhotes a se desprenderem das mães. Uma hipótese é que os adultos são caçados e os filhotes ficam abandonados. Mas há a possibilidade de o filhote se perder da mãe, principalmente se um dos dois ficar preso em uma rede de pescador. Há casos de filhotes encontrados em malhadeiras, redes usadas para captura de peixes.
Em quase todos os casos, o filhote chega debilitado. “Ele precisa da mãe para se amamentar nos dois primeiros anos de vida, só depois do segundo ano é que ele começa a comer plantas”, explica Isabel Manhães. Quando capturado por comunitários, por mais bem intencionadas que as pessoas estejam, começa um martírio para o filhote, faminto, sem alimento adequado, e longe da mãe que o protegeria.
Veja mapa interativo com localizações exatas de onde foram encontrados os filhotes. Os quadrados são peixes boi levados ao INPA e os pontos amarelos levados ao CPPMA. Utilizar os cursores na canto superior direito para navegar.
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1o Filhote
O primeiro filhote resgatado em 2010 chegou ao Laboratório de Mamíferos Aquáticos do Inpa na manhã de 26 de janeiro. Moradores de Codajás (AM) mantiveram o animal em um tanque, até a chegada da polícia ambiental, que o transportou até o Inpa. Era uma fêmea saudável, que foi adotada por uma adulta que tinha acabado de dar à luz. Colocada no mesmo tanque, ela foi alimentada pela mãe adotiva.
2o Filhote
No início da tarde de 12 de fevereiro, o segundo filhote do ano chegou ao Inpa, desta vez um macho. Também mantido em cativerio artificial e entregue à polícia ambiental, estava muito abatido e com um ferimento de arpão nas costas. Recebeu atendimento médico-veterinário no laboratório e sobreviveu.
3o Filhote
O terceiro filhote veio da comunidade Juçara, em Coari, rio Solimões. Foi entregue ao Inpa pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, no dia 22 de março, mas estava desnutrido. Pesava 13 quilos e media 96,5 centímetros. Morreu no dia 07 de junho.
4o Filhote
De Coari, veio também o quarto filhote, no dia 8 de março. Foi encontrado na comunidade Mato Grosso, enrolado a uma malhadeira. Foi resgatado no dia 13 de abril pela Polícia Ambiental e levado para Manaus. Sobreviveu por poucos dias. Foi o primeiro filhte resgatado a morrer no Inpa este ano, no dia 20 de abril.
5o Filhote
A segunda fêmea entre os filhotes resgatados este ano estava no Lago Puraquequara, em Manaus. Um morador viu o filhote boiando na margem do lago e o resgatou. Ela foi levada a uma pousada que fica nas imediações do lago, em um tanque improvisado, onde foi alimentada com leite em uma mamadeira, até a chegada de policiais militares do Batalhão Ambiental.
6o Filhote
No dia 19 de abril, foi encontrado outro filhote enrolado em uma malhadeira de pesca, o sexto resgate do ano. Ele estava próximo a comunidade Bom Jesus do Grêmio, na boca do lago Gurupá, no município de Careiro da Várzea. Foi mantido por comunitários em uma caixa d'água de mil litros até o resgate, dois dias depois.
7o Filhote
Em Coari, até agora este ano, foram três filhotes resgatado. O mais recente foi encontrado por comunitários de Itapeuvá, no Rio Solimões. A fêmea precisou de um curativo, tinha uma perfuração abaixo da nadadeira direita. Recebeu os primeiros cuidados no Inpa. Agora está em recuperação no Centro de Preservação e Pesquisa em Mamíferos Aquáticos (CPPMA), em Balbina, município de Presidente Figueiredo.
8o Filhote
O oitavo filhote resgatado também se recupera no CPPMA. É uma fêmea, com idade estimada de 2 meses na época do resgate. Ela foi encontrada na comunidade São Francisco Gurupá, Lago Inema, no Careiro da Várzea, no dia 25 de maio. Também estava enrolada em uma rede de pesca. Foi mantida em cativeiro pela comunidade até o dia 16 de junho. Estava desnutrina, mas não tinha nenhum ferimento. Foi transferida para Balbina.
9o Filhote
Iara, nome dado pelos comunitários que a resgataram, foi encontrada no Rio Preto, comunidade do Castanho, em Autazes, no dia 2 de julho. Foi mantida em uma caixa d'água até a chegada da equipe da Associação Amigos do Peixe-boi da Amazỗnia e levada de avião para Manaus. Muito debilitada, recebeu atendimento, mas não resistiu. Morreu no dia 7 de julho.
10o Filhote
O décimo peixe-boi resgatado no ano foi encontrada no dia 12 de julho, por um pescador, perto da comunidade Cristo Rei, rio Anibá, em Silves. Estava sozinha perto da margem do rio. Foi amarrada pela cauda com uma corda na canoa. Resgatada no dia 14 de julho, recebeu cuidados principalmente no ferimento provocado pela corda. Estava desnutrida, mas se adaptou bem a fórmula láctea desenvolvida pelos pesquisadores do Inpa para alimentar filhotes de peixe-boi.
11o Filhote
No dia 29 de julho, o décimo primeiro filhote resgatado pela Associação Amigos do Peixe-Boi da Amazônia (Ampa) chegou a Manaus. No ano passado, haviam sido resgatados dez pela Ampa. Batizado como Caburi, nome da comunidade onde foi encontrado, no município de Parintins (420 quilômetros de Manaus), chegou em bom estado de saúde. Com dois meses de idade, 1,05 metro e 12 quilos, no dia do resgate, foi achado enrolado em uma rede de pesca. No dia seguinte, já tinha sido levado ao Ibama de Parintins, onde permaneceu por 5 dias.
A viagem para Manaus, feita em um barco de Recreio, durou 24 horas. O filhote foi acompanhado pelo pesquisador Diogo Souza. “Nós colocamos ele em uma caixa d'agua, com água pela metade, e cercamos com lonas para fazer sombra. Em vim na rede, dando mamadeira para ele”, conta Diogo. O filhote virou atração no barco, onde viajavam cerca de 200 pessoas. O trajeto virou uma oportunidade para o pesquisador esclarecer os passageiros sobre o programa de preservação do peixe-boi. “A gente explicou que o bicho está em extinção, que muita gente não sabia, e ouviu muitas histórias também”, conta Diogo.
CPPMA
Além do Inpa, no Amazonas, existe um Centro de Preservação e Pesquisa de Mamíferos Aquáticos (CPPMA), que funciona em Balbina, Presidente Figueiredo. O Centro é financiado pela Eletrobrás e trabalha em parceria com o laboratório do Inpa. Estes outros quatro peixes-bois foram resgatados este ano no Amazonas e levados à Balbina. Crédito das fotos CPPMA
Bacaba
Bacaba foi resgatada no dia 14 de janeiro, quando tinha apenas 15 dias, por um pescador que a avistou ao lado da canoa. Ela viajou de Codajás a Manaus em uma canoa, sob cuidados do Batalhão Ambiental da Polícia Militar. Após receber os primeiros cuidados no Inpa, foi levada ao Centro de Preservação e Pesquisa de Mamíferos Aquáticos (CPPMA), em Balbina, Presidente Figueiredo, no dia 18 de janeiro.
Macuri
Macuri foi encontrado no dia 15 de fevereiro, nadando às margens do lago Macuricanã, quando tinha apenas 45 dias. Recolhido por um pescador, foi levado a uma comunidade. No dia 23 de fevereiro, foi levado ao Ibama de Parintins, onde permaneceu até 6 de março. De lá, foi levado em um barco até Manaus. Só chegou no dia 7 de março ao CMMA
Bumbá
Esta fêmea foi encontrada boiando às margens do Rio Andirá, entre Parintins, com 30 dias. Foi levada ao escritório do Ibama na cidade, onde ficou até o dia 7 de maio. Dois dias depois, chegou ao CPPMA.
Aricoroa
Aricoroa foi o sexto filhote recebido pelo CPPMA este ano. É um macho, resgatado com 4 meses de idade, e ainda está abaixo do peso. Provavelmente, tenha se perdido da mãe, estava se alimentado de raízes e lodo. Foi encontrado no dia 23 de julho, encalhado em uma parte rasa do igarapé Aricoroa, em Itapiranga. Um pescador o levou para casa e o manteve em uma caixa d'água. Viajou em uma voadeira (lancha pequena) disponibilizada pelo CPPMA, por mais de 12 horas, entre Itapiranga e Balbina.
Vandré Fonseca é paulistano, viveu em São Paulo até se formar em jornalismo na Casper Libero. Depois, se mandou para Roraima, onde começou a escrever para ((o))eco. Casou e hoje é correspondente em Manaus.