Maria Clara Valencia
21 de Fevereiro de 2011
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Entre as tantas complexidades e contradições que enfrenta a Colômbia está a guerrilha e o que ela significa para uma região tão importante como a Amazônia. O conflito armado deixou milhares de mortos e as cifras de ‘deslocamento compulsório’ superam as quatro milhões de pessoas. Porém, alguns especialistas consideram que, paradoxalmente, foi justamente o conflito que ajudou a conservar a floresta.
Mas agora, conforme o Exército avança e começa a retirada das guerrilhas, ambientalistas se preocupam porque a medida tem vindo sem qualquer monitoramento ambiental ou estratégia de fortalecimento da governança local para cuidar a selva.
O sociólogo e jornalista Alfredo Molano, que tem passado boa parte da vida estudando o conflito armado, diz que “onde entra o Exército, entra a pecuária e, com ela, o desmatamento”. “O papel do Exército é abrir espaço ao investidor porque a segurança democrática (estratégia de combate às guerrilhas) é recuperação da ordem pública para pôr investimentos e garanti-los”, explica.
“Quando se derruba a floresta se investe em pastagem para o gado, esta é a ação mais rentável. Alternativas a isso são mais complicadas porque requerem alta densidade de mão-de-obra ou alta tecnologia”, afirma. Molano assegura, inclusive, que grandes extensões de terra estão hoje em mãos de generais, que também são pecuaristas.
Sinal verde para a mineração, e para o Brasil
Mas não se trata só da expansão da fronteira agrícola. Carlos Rodríguez, diretor na Colômbia da organização holandesa
Tropenbos International, indica que com a retirada da guerrilha chegaram às regiões de Putumayo e Guainía mineradoras e petrolíferas que estão impactando a floresta.
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“A mineração, por onde quer que se olhe, é terrível e essa é uma grande ameaça para a Amazônia. Já existem mais de duas mil solicitações de lavra, mais da metade terminarão com autorização e os outros desenvolverão a mineração ilegal, porque lá, quem controla?” se pergunta. Rodríguez considera que “isso é mais ameaça que a pecuária porque não tiram uma vaca do meio da floresta, mas sim um quilo de ouro”.
O diretor acredita ainda que muitas invasões trazem capital brasileiro. “A mineração ilegal é expansionista e incontrolável e vem pelos lados onde mais foram exploradas as minas: o Brasil. A mineração que está chegando do Brasil é ilegal, com pequenas dragas e totalmente desorganizada”, assegura.
Embora o governo da Colômbia tenha iniciado uma campanha para combater a mineração ilegal, isso não renova as esperanças para a floresta, pois, como explica Alfredo Molano, estão combatendo a mineração ilegal para introduzir a grande empresa. “Quem faz mais dano?”, se pergunta. “Essas licenças ambientais dos projetos de mineração são muito corrompidas”, garante. As companhias estudam o problema ambiental e apresentam projetos de mitigação que não realizam”, conta.
Molano indica que, inclusive, os territórios indígenas (territórios coletivos) estão sendo oprimidos pelo capital do garimpeiro, pois estão alugando pedaços dos territórios clandestinamente.
E as soluções?
Para Alfredo Molano, a única solução é evitar pressão da fronteira agrícola sobre a estrutura da propriedade, devolvendo terra à população e regulando a expansão das grandes fazendas pela via tributária. “Senão o desmatamento e a colonização continuarão avançando em um ritmo exageradíssimo”.
Sistemas como o de pagamento por serviços ambientais, que permitam à população ter ingressos por cuidar a floresta, também podem ser possíveis soluções.
Guerrilha sem benevolência ambiental
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Embora o conflito armado tenha ajudado a barrar invasões na Amazônia, a guerra não foi benevolente com a floresta. A guerrilha manteve longe os invasores, mas ao mesmo tempo causou desmatamentos na medida em que a conversão de floresta em pasto aumentou significativamente onde as pessoas deslocadas compulsoriamente por causa das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) se instalaram.
Além disso, os cultivos ilegais dos quais lucra a guerrilha, são considerados um dos principais fatores de desmatamento no país, não só pelas lavouras em si, mas pelo que elas implicam: dano ambiental e deslocamento.
Em um artigo da universidade americana Stony Brook intitulado ‘Forests and Drugs: Coca-Driven Deforestation in Tropical Biodiversity Hotspots’, a bióloga Liliana Dávalos e sua equipe afirmam que a coca é mais um sintoma do que uma causa do desmatamento. Segundo ela, as grandes razões da perda da floresta são a desigualdade socioeconômica, as políticas fracassadas de desenvolvimento agrícola e os conflitos armados, pois os cultivos estão concentrados em áreas com elevados índices de pobreza.
Nessa mesma linha, Germán Andrade, professor da Universidade dos Andes, explica que o impacto dos cultivos de coca já não pode ser medido só em hectares, mas levando-se em conta todo um sistema sociopolítico de destruição: essa cadeia que vai atrás da fumigação e o deslocamento ou da falta de governança.
“Essas cadeias são devastadoras para a floresta, incluindo o enfraquecimento do estado”, diz. Segundo ele, “o último capítulo dessa cadeia é a segurança democrática, que é uma resposta política à ameaça das FARC, mas que levou, desde o mais alto nível do estado, ao enfraquecimento do setor ambiental”. “Nunca antes instituições como o Ministério de Meio Ambiente estiveram tão fracos como agora”, assegura.
Monitoramento de cultivos ilegais
Segundo a última
‘Análise multitemporal de cultivos de coca 2008 - 2009’ do Sistema de Monitoramento de Cultivos Ilícitos (Simci), na Amazônia colombiana encontram-se três dos departamentos (estados) com maior influência de cultivos ilícitos: Guaviare (10% do total do país, com 5.587 ha), Putumayo (7% - 4.097 ha) e Caquetá (5% - 2.914 ha).
O deslocamento das plantações como resultado da perseguição do governo aumentou o desmatamento, embora em alguns cultivos abandonados a floresta tenha se regenerado.
Os principais exemplos de efeito dos cultivos ilícitos são de Caquetá, onde entre 2001 e 2002 havia 1.818 ha de matas primárias, e em 2008-2009 ela caiu para 332 ha; e em Guaviare, que passou de 12.214 ha entre 2001 e 2002 para 1.421 ha entre 2008 e 2009.
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Maria Clara é jornalista e profissional em estudos literários apaixonada pelos temas de meio ambiente e viagens. Trabalha como freelance em Bogotá, na Colômbia.