María Clara Valencia
02 de Dezembro de 2010
O desmatamento da Amazônia tem um impacto muito além dos limites da floresta. Os especialistas asseguram que a perda de árvores nesta região influencia desde o ciclo de chuvas na capital colombiana Bogotá até o clima do ‘Midwest’ americano. Por isso, é urgente monitorar as políticas e os índices de desmatamento desta região, algo até então precariamente desenvolvido na Colômbia.
Para suprir esta lacuna, nasceu a ideia do projeto “Amazonas 2030”, uma iniciativa que reúne sociedade civil, empresas e meios de comunicação da Colômbia com o objetivo de dar visibilidade a uma região que, segundo o antropólogo Martín von Hildebrand, diretor da Fundação Gaia Amazonas e membro deste projeto, “até agora recebeu um tratamento de pátio traseiro”.
Com “Amazonas 2030” pretende-se dar continuidade às políticas e ações que sejam realizadas na Amazônia, para garantir que os ecossistemas e os habitantes desta região possam se desenvolver de maneira sustentável e melhorar sua qualidade de vida. O projeto está comprometido em promover uma mudança de visão, a partir de um novo modelo de desenvolvimento e de sustentabilidade socioambiental, adequado às particularidades da região e a sua diversidade cultural e biológica. Para isso promete monitorar sistematica e periodicamente a região através da definição de indicadores socioambientais, construção de banco de dados, linha de base e publicação de informativos análiticos. Também prevê a realização de enquetes com a população sobre sua percepção em relação à Amazônia, além de seminários, fóruns e outras oportunidades de participação social.
Relevância da iniciativa
“Dezoito por cento da bacia amazônica foram desmatados, e o desmatamento anual hoje em dia emite uma quantidade de CO2 que equivale ao que emite todo o sistema de transportes do mundo. Se não ganhamos a luta contra o desmatamento perderemos a luta contra as mudanças climáticas” disse durante o lançamento da iniciativa, Martin von Hildebrand, que por mais de duas décadas tem trabalhado com as comunidades indígenas da região.
“Em anos recentes temos visto verões mais prolongados, períodos de secas mais extensos e incêndios mais freqüentes. Todos esses são sinais de alerta sobre o impacto que estão tendo as mudanças climáticas na Amazônia colombiana”, garante. Nesse contexto, ele assegurou que esta região da Colômbia pode ser o último refúgio possível para mitigar os efeitos das mudanças climáticas; porém, não lhe foi dada à importância que merece. “Colômbia foi percebida sempre como um país caribenho e andino, e não como amazônico. É hora que o seja, porque tem a maior floresta tropical do planeta”, diz.
“A Colômbia poderia ser o ultimo refúgio da Amazônia como o conhecemos hoje”, enfatizou. E embora reconhecesse alguns esforços em conservação que fez o país, como a criação dos territórios indígenas, as 17 Áreas Protegidas, os 14 Parques Nacionais Naturais, 2 Reservas Nacionais Naturais e um Santuário de Flora e Plantas Medicinais, insistiu que são necessários esforços ainda maiores.
Precárias pesquisas na Colômbia
Wendy Arenas, diretora da Fundação Alisos, que também faz parte do projeto, destacou o pobre estado da pesquisa que existe sobre a Amazônia colombiana e a escassa qualidade da informação que se tem acerca desta região.
Conforme Arenas, é preciso melhorar a investigação em temas como o impacto das mudanças climáticas nos ecossistemas de florestas tropicais. Do mesmo modo, é necessário um melhor uso dos dados disponíveis para medir os futuros índices de desmatamento.
“Sem esta informação, vai ser difícil ajudar a formular uma política de governo”, assegurou. “A Amazônia não é só brasileira. Necessitamos de uma maneira mais integral para vê-la e desenvolver políticas regionais, particularmente entre as nações andinas, como Peru, Colômbia e Equador, que compartilham a floresta”, disse.
“Segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) e WWF, se continuar o atual ritmo de desmatamento, em 2030 só existirão 45% da floresta, o que implica o colapso do ecossistema amazônico. Este processo reduziria sua habilidade de capturar o carbono da atmosfera e perturbaria o regime de chuvas em todo o continente”, afirmou.
César Caballero, gerente de Cifras e Conceitos, a empresa que reuniu a informação que existe sobre a região, indicou que 22% dos dados existentes são de 2005 ou antes do ano 2000. “Não existem dados atuais sobre população nem tem informação com perspectiva étnica, isso não permite orientar as discussões que existem sobre o tema”, disse.
Por isso os promotores da iniciativa insistem na urgência de realizar um censo da população amazônica, já que perante a dificuldade de chegar a lugares remotos, nem sequer se sabe quanta gente mora lá.
Natalia Hernández, coordenadora do projeto “Amazonas 2030” apontou que “temos uma enorme responsabilidade com o mundo de preservar a Amazônia e para isso devemos planificá-la e pensa-la desde uma visão amazônica, com indicadores de condições de vida diferentes aos que se aplicam ao resto do país”.
O “Amazonas 2030” conta com o apoio da Fundação AVINA e do governo da Holanda. O país destinou para o projeto 5 milhões de dólares, sendo 4 milhões para apoiar as políticas ambientais da Colômbia em 2011 e um milhão durante os próximos 4 anos para o “Amazonas 2030”.
Mais informações em: www.amazonas2030.net