A poucos quilômetros da comunidade Rio Negro, onde vive o líder comunitário Sixto Tustón, está projetada a construção de uma represa na confluência dos rios Topo, Zhúnhag e Pastaza que, segundo grupos que se opõem à obra, inundaria a parte baixa da bacia do Topo e cobriria trechos de floresta virgem e primária. A zona é porta de entrada à selva amazônica com sopés da cordilheira oriental de zero a 1500 metros sobre o nível do mar. No total, oito projetos hidrelétricos estão previstos na bacia do Pastaza e seus tributários: Topo 1 e 2; Habitagua 1 e 2; Muyo Lligua 1 e 2 e Rio Verde Chico 1 e 2, todos impulsionados pelo Conselho Nacional de Eletricidade (CONELEC).

A primeira a sair do papel seria Topo 1, mas no momento o projeto está parado, pois a Câmara Provincial de Turismo de Tungurahua interpôs um processo de inconstitucionalidade à licença ambiental outorgada pelo CONELEC à empresa Proyectos Energía Medio Ambiente, executora do projeto. Soma-se a isso a resistência dos habitantes de Banhos de Água Santa - região da província de Tungurahua, a 180 quilômetros ao sul de Quito – que, neste momento, coletam assinaturas para pedir ao Conselho Nacional Eleitoral uma consulta popular que empodere a população quanto ao destino devido da água, recurso garantido pela atual Constituição. “Esta região já deu outros dois projetos como este para o país, não estamos dispostos a perder mais cascatas”, diz energicamente Ximena Guevara, ambientalista e promotora turística.

O rio Pastaza se forma pela confluência dos rios Chambo e Patate. Está divido em Alto Pastaza - desde sua origem até a desembocadura do rio Huasaga - e Baixo Pastaza, desde a boca do rio Huasaga até a foz no rio Maranhón, no Peru. O rio Pastaza é a terceira bacia hidrográfica do Equador, com uma superfície de 23.057 km2² e média anual de precipitação de 3,255 mm. Atravessa cinco províncias com população total de 1.370.000 habitantes, o equivalente a 11,28% do país.

Os ríos Topo e Zhúñag são afluentes do Pastaza. O Topo nasce nos Llanganates, a 4.571 metros sobre o nível do mar, em uma famosa cadeia montanhosa da serra central do Equador, onde acredita-se estar escondido o tesouro destinado a salvar a vida do inca Atahualpa, prisioneiro de espanhóis durante a Conquista. O Topo é caudaloso, com 120 metros cúbicos por segundo. O Zhúñag é duas vezes mais caudaloso do que isso.

Perda de espécies

A existência da Myriocolea Irrorata – planta do grupo das hepáticas, integrante das briófitas - era quase um mito entre a população de Banhos de Água Santa. Ninguém a tinha visto desde que foi incluída na caderneta de viagem do botânico inglês Richard Spruce, que em 1857 fez uma viagem pelo rio Topo na província de Tungurahua, serra central do Equador. A planta foi vista novamente em 2001 por Rob Gradstein, da universidade alemã de Gottingen. É endêmica, cresce entre 1.200 e 1.700 metros sobre o nível do mar, depende de muita umidade e luz, encontra-se nos primeiros cinco metros das margens do rio Topo e, com a construção das barragens, corre o risco de desaparecer.

Sixto Tustón já trabalhou no projeto hidrelétrico San Francisco, construído poucos quilômetros ao oeste de El Topo pela empresa brasileira Odebrecht. E diz que também teme pelas lontras, pelo (astroblepys sp), (peixe que se vê muito pouco), por orquídeas consideradas únicas e especialmente pela água. “Não podemos perder parte do fluxo do rio ou talvez todo o rio, como já aconteceu no Agoyán e no San Francisco”, diz.

Fim de cascatas

A cascata Agoyán um dia foi o símbolo do turismo na região. Sua imponente presença ficou para sempre marcada no hino de Banhos de Água Santa e o escudo da província de Tungurahua. Quando construíram o primeiro projeto hidrelétrico ela desapareceu para sempre.

Coisa similar aconteceu com o projeto San Francisco, encabeçado pela construtora Odebrecht, depois expulsa do país pelo presidente Rafael Correa assim que uma auditoria detectou diversas falhas cometidas pela empresa. Quando começou o projeto, para levar por um túnel de 11 quilômetros a água de Agoyán, as vertentes de San Francisco, El Churo, La Esperanza, Machay, La Barbacha, Río Verde, La Delícia, El Placer e La Escudilla secavam paulatinamente. “Quando me levantei na madrugada de 7 de novembro de 2005, já não escutei o estrondo da cascata San Jorge. Era incrível, toda a água tinha desaparecido”, conta Alcides Díaz, dirigente ambientalista de Banhos de Água Santa.

Outro lado

Wilson Méndez, sociólogo do plano de Responsabilidade Social Empresarial de Hidrotopo, empresa que deve operar o projeto hidrelétrico Topo, autorizado em 2006, diz que esta obra consta no Plano Mestre de Eletricidade do atual governo, para o qual contam com a perspectiva de licença ambiental, permissões de construção e instalação, entre outras.

Ele assegura que o projeto não inclui a construção de uma represa. “22,7 MW serão gerados – no máximo, chegaremos a 29MW. Ou seja, trata-se de um projeto relativamente pequeno, com componentes diferentes. Além disso ainda não é certo que os projetos Topo Dos, Habitagua, Muyo Lligua, entre outros, estejam em andamento”.

De acordo com Mendez, não mais que 10 metros cúbicos por segundo (m3s) de água será tirada do rio Topo, cujo fluxo em época de estiagem é de 25 m3s. "Esse é a concessão que nos foi dada pela autoridade da água", diz ele. Hidrotopo é uma empresa privada que adquiriu um terreno de cerca de 36 hectares para sua localização. No entanto, assegura, a usina será construída em uma área de apenas de seis hectares. "Assim sendo a oposição é injustificada."

Mendez desqualifica grupos que protestavam contra o projeto e diz que eles são uma minoria. Ele também acusa Lou Jost, biólogo norte-americano radicado em Banhos de Água Santa, tido como o redescobridor da Myriocolea Irrorata, de não "explicar claramente a funcionalidade da planta hepática que diz defender, e que tampouco será afetada". O Eco Amazonia tentou entrar em contato com o biólogo, mas não foi possível. O tempo dirá como os projetos ameaçam Banhos de Água Santa.


Saiba mais:
Artigo completo na web da Fundação Natura
Poluição hidrelétrica
Construir para destruir, por Karina Miotto


Ricardo Tello é jornalista free-lance. Foi editor dos diários El Universo de Guayaquil e El Tempo de Cuenca. Ganhou diversos prêmios como o Jorge Matilla Ortega, no Equador, e na primeira convocatória das Bolsas de Investigação Jornalística da Fundação Avina. Atualmente divide seu trabalho com a docência universitária.


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