Neil Marks
18 de Julho de 2010
Os manguezais nunca foram reconhecidos como um integrante da floresta e são cortados para servir de lenha, cercas, pastagem para cabras. Além disso, os mangues são vistos como terrenos baldios e focos de mosquitos. Assim, os que vivem na costa não param para pensar duas vezes antes de jogar lixo e tocar fogo nessas áreas.
"Temos permissão da autoridade local", afirma Carlos Cummings, que derrubou os mangues-preto e os usou como lenha para produzir "tijolos Brunt". Ele começou seu negócio praticamente ao mesmo tempo que o ministro da Agricultura, Robert Persaud, aprovou novas leis para proteger os mangues.
"É uma mentira", replica Bissasar Chintamani, o cientista que coordena o projeto ambicioso para proteger e restaurar florestas. Ele não acredita que a autoridade local aprovou. Por sua vez, Cummings diz que tem todos "os documentos" para provar isso.
Mas tudo o que Chintamani pode realmente fazer é dirigir pela enorme pilha de tijolos queimados que olha para ele, a menos que ele mesmo possa parar isso. Nenhum agente com o poder de efetuar prisões está alocado para patrulhar o extenso litoral e a polícia não tem mandato para fazer detenções.
"A polícia não está envolvida nisto. Nós não fomos convidados pelo comandante. Isso é para os governos locais e regional ", explica Steve Merai, Comandante da Divisão Berbice da Polícia de Guiana.
Ironicamente enquanto o governo agora corre para proteger os mangues, os mesmos tijolos queimados produzidos a partir da destruição do mangue são utilizados nas rodovias financiadas pelo governo.
"Estamos dialogando com o Ministério da Administração Local para tentar parar, nos conta Chintamani. Mas ele terá que fazer muito mais se quiser convence-los.
Negócio ameaçado
Mangues na Guiana
As florestas de mangue na Guiana são encontrados em grande parte da costa atlântica do Rio Corentyne até o Rio Waini. As florestas de mangue são encontrados também na transição entre os ecossistemas terrestres e marinhos, em estuários, zonas úmidas e em áreas intermarés ribeirinhas. As três principais espécies de manguezais são encontradas no país, Rhizophora mangle, Avicennia germinans e Laguncularia racemosa. A área total de mangues na Guiana é estimada em 80.432 hectares. A falta de visão sobre a criticidade deste ecossistemas estratégia para defesa da costa talvez tenha sido a sua maior ameaça. Manguezais tem sido considerados como uma propriedade comum a ser explorada sem controle. Em decorrência dessas atitudes e práticas, foi colocado em perigo ou eliminada grandes áreas de florestas de mangue, com consequências potencialmente negativas em termos de erosão e perda de valiosos recursos biológicos e serviços ecológicos. |
O homem que fabrica tijolos diz que recentemente recebeu somente uma grande encomenda da autoridade local e o centro de pesquisa do governo em arroz também fez seu pedido. Cummings sabe que agora é ilegal cortar manguezais.
"Eu acho que não vamos continuar", disse Cummings, ao saber que é ilegal cortar as árvores de mangue. Chintamani espera que ele mantenha sua palavra.
O maior desafio do projeto multimilionário de Chintamani é convencer a população local da necessidade de proteger e restaurar o manguezal e ele está vendo algum sucesso.
Na sua aldeia natal de Novar, em Mahaicony a 39 milhas (aproximadamente 72 Km) da capital Georgetown, Chintamani recebeu uma denúncia e conseguiu impedir um homem que estava usando o mangue-preto para produzir tijolos, mesmo depois dos manguezais já cortados e empilhados.
De acordo com a lei de defesa do mar, quem for pego cortando manguezais pode ser multado em GYD$ 12.000 (R$ 105,26) e pena de até doze meses de prisão. Porém, até agora não há nenhuma aplicação rigorosa da lei, as abordagens estão sendo cautelosas e consequentemente está se observando uma maior destruição das florestas de mangue.
A poucos quilômetros de Novar, no Village nº6 em Berbice, um agricultor leva suas ovelhas e cabras à beira-mar para pastar, o que os ruminantes mastigam são mangue jovens.E isso ocorre ao lado de um cartaz enorme que adverte sobre as penas para quem destruir manguezais.
"Não queremos causar conflitos. Temos que fazer as coisas passo a passo ", afirma ele. Entretanto as cabras continuam mastigando. A cautela Chintamani pode fazer sentido. Na ausência pastos, onde o agricultor pode colocar seus animais para pastar?
"Nós solicitamos ao Ministério da Agricultura para que eles busquem áreas alternativas de pastagens para os agricultores", diz Chintamni. Nos parece pouco provável que isto ocorra dentro um mês, quando Chintamni iniciará um projeto para restaurar uma parte da costa de manguezais.
Ele encontra consolo no fato de que o apoio às comunidades locais está melhorando gradualmente. Na verdade, restaurar os mangues também significa ajudar na subsistência de um grupo de mães solteiras na comunidade de Trafalgar em Berbice.
Elas estão sendo pagas para ir para a beira-mar, pegar as plantas de mangue que foram colocadas para germinar no mar e cultiva-las em um pequeno galpão na vila. Uma vez que elas atingem um determinado estágio, as mudas serão transferidas para o Instituto Nacional de Investigação Agrícola, onde crescerão até ficarem mais fortes antes de serem plantadas novamente no litoral.
"Isso dá às mulheres um pouco de subsistência e esperamos que mais tarde elas possam trabalhar como fiscais", diz Lloyda Angus, a presidente do Comitê de Desenvolvimento da Comunidade Trafalgar. Até agora, estima-se 6.000 mudas em crescimento.
Educação ambiental na prática
Este trabalho está criando um falatório na comunidade e Angus diz que as crianças da escola estão começando a conhecer a importância dos manguezais na proteção do litoral. Nos 430 quilômetros de costa, existem 15 projetos em curso.
A maior atenção às questões de mudanças climáticas está mudando a visão do país com relação aos manguezais e um ambicioso projeto está em andamento, não só para proteger as florestas de mangue remanescentes, mas também para restaurar porções ao longo do litoral.
Chintamani está mobilizando a ajuda de todos, incluindo os pescadores. Os manguezais produzem postes fortes e duradouros para o setor da pesca artesanal. Estes postes são utilizados principalmente para atracar embarcações e para apoiar as redes de emalhe e aviãozinho, vulgarmente conhecida como cerco chinês.
Os pescadores educados sobre a importância de salvar os manguezais estão agora utilizando espécies florestais alternativas para obter os seus postes. A ideia de que a restauração dos manguezais poderá trazer de volta como prêmio os bagres é uma boa notícia para eles.
O Sasenarine, por exemplo, lembra-se de capturar 10 bagres, agora ele com sorte consegue um por mês. Ele é pescador há 35 anos e já pescou bagres pesando até 70 quilos.
O fato de ser um dos peixes mais valorizados no mercado é um incentivo suficiente para encontrar uma maneira de traze-los de volta para suas redes.
Os manguezais são viveiros naturais de camarões (Paneaus spp.) e de peixes ósseos (das famílias Sciaenidae e Aridea), que se alimentam deste crustáceos com os bagres. Assim, os pescadores estão em uma missão para trazer de volta esta espécie e restaurar o manguezal pode ser uma maneira para que isso aconteça.
Mas ainda há uma outra ameaça para a floresta de mangue que ainda não foi abordada, a indústria de tanino que extraído sua matéria prima a partir da cascas das árvores.
Devido a um aumento na demanda de tanino, a produção aumentou drasticamente durante o período de 1996-1999. A comissão de florestas da Guiana estimou em 1996 um total de 10.800 Kg de córtex foi extraído nas regiões um e dois para uso na indústria do couro local. Três anos mais tarde, a quantidade extraída subiu vertiginosamente para 90.956,8 Kg.
Anette Arjoon, presidente do comitê de ação de mangue, acha que se os cidadãos conhecerem outros usos alternativos do manguezal poderá se aumentar a proteção dos mesmos.
Como exemplo, ela cita que a utilização dos mangues para apicultura. De fato, aproximadamente 75% do mel produzido na Guiana vem de abelhas do manguezal.
Arjoon acredita que se a apicultura for extendida para outros manguezais, poderá servir a um duplo propósito - ajudar a produzir mel e afastar aqueles que cortam os manguezais, porque os guianenses tem aturalmente medo de abelhas.
Defesa marítima
A proteção e a restauração da vegetação dos manguezais se tornou um ponto fundamental do setor da defesa marítima, devido à mudança climática global. A Guiana por ser uma planície costeira de baixa altitude, com um litoral se desintegrando, com poucos recursos e com um baixo defesa do rio corre um risco excepcional com o aumento do nível do mar, um dos resultados mais certos do aquecimento global.
A zona costeira da Guiana encontra-se entre 0,5 a 1,0 m abaixo do nível da maré alta na primavera do Oceano Atlântico, tornando-se particularmente vulneráveis à inundações, erosão e salinização. Além disso, é esperado um aumento do nível global do mar de 20 cm a 100 cm até o ano de 2100. A zona costeira tem 430 km de comprimento e 26-77 km de largura.
Dos 750.000 habitantes, aproximadamente 90 por cento da população do país vive na zona costeira. Tem os solos mais frágeis, embora represente menos de sete por cento da área terrestre do país. Portanto, a Guiana não pode se dar ao luxo de ignorar o Oceano Atlântico.
As informações obtidas a partir do projeto de defesa do mar próximo ao rio Essequibo entre 1979 e 1984 com recursos internacionais indicou que "a melhor proteção costeira que pode ter na Guiana é uma longa inclinação partir da antepraia, levando aos manguezais e uma pequena barragem de terra por trás disso."
Os manguezais costeiros, que impedem as ondas de bater diretamente no paredão de concreto, foram drenados e em muitos lugares, a madeira foi extraída e substituída por barreiras, canais de irrigação, polders e assentamentos humanos.
Foi em 2005, quando a pior enchente na história do país devastou o litoral da Guiana que despertou para a realidade das mudanças climáticas e soluções para bloquear o mar começaram a surgir, as atenções se voltaram para os manguezais.
Duas ou três centenas de anos atrás, toda a costa estava coberto de mangues, diz Chris Ingelbrecht, Chefe da Seção Técnica da Delegação da UE em Georgetown.
Ao longo dos anos, as florestas de mangue foram esgotadas, devido, principalmente, à falta de apreço pelo papel que desempenham na proteção do litoral, diz Ingelbrecht.
Não há nenhuma indicação clara de como grande parte da floresta de mangue foi destruída ao longo dos anos, mas a comissão de florestas da Guiana está procurando uma resposta utilizando SIG e sensoriamento remoto.
Os mangues protegem a costa através da estabilização da linha de costa e do controle da erosão. Os manguezais são também a primeira linha de defesa contra a ação das ondas e das tempestades, ajudando a proteger os aterros e reduzir os danos causados pelo mar.
Ingelbrecht diz que o custo da reparação e manutenção de muros de proteção poderia ser significativamente reduzido se as florestas de mangue fossem restauradas. Ingelbrecht sabe o custo de construção e reparação desses paredões, uma estrutura de concreto que mantém as águas do Atlântico longe das comunidades e fazendas.
O grande trabalho da Comissão Europeia na Guiana é a proteção da costa. Até o momento 18 milhões de euros foram gastos em 31 áreas para corrigir ou criar novas defesas contra o mar e outros 14 milhões de euros são esperados em breve.
Mas os grandes gastos na reparação da defesa do mar podem reduzir significativamente se o manguezal for restaurado ao longo da costa. Com a União Europeia priorizando as mudanças climáticas em todos os seus programas de apoio, a proteção dos manguezais e restauração parece um projeto automático. Agora, a Comissão Europeia se prepara para dar à Guiana 4.165.000 de euros para o projeto de restauração dos manguezais.
"É um meio muito eficaz de defesa da costa do mar se você conseguir obter algo sustentável em termos de crescimento do manguezal", diz Ingelbrecht.
Tinha que ser o aquecimento global para mudar o destino da floresta de mangue e de fato a restauração do manguezal da Guiana pode ajudar a proteger toda uma nação de danos catastróficos.
Neil Marks tem trabalhado na imprensa escrita e televisão da Guiana nos últimos 10 anos e ganhou diveros prêmios por suas reportagens sobre biodiversidade, desenvolvimento sustentável, mudanças climáticas e saúde.