Lima - Maiores subsídios, mais conectividade, mais infraestrutura. Também pagamento por serviços ambientais, claro, luta contra a extração ilegal de madeira e reflorestamento. Mas a primeira coisa que parece surgir na mente dos candidatos à presidência no Peru, ou de seus representantes, é uma visão da Amazônia centralizada nas cidades, algo logicamente indispensável, mas quando colocado na mesa de debate, é insuficiente para um manejo sustentável.

“É preciso dar tratamento VIP à Amazônia”, comenta Elmer Cubas, Chefe do Plano de Governo de Solidaridad Nacional (SN), partido cujo candidato, Luis Castanheda Lossio, está entre segundo e terceiro nas pesquisas de intenção de voto (com quase 20%). Para ele, isso significa subsídios para os professores e policiais, pelos problemas de deslocamento que existem no território amazônico, algo que chega a ser dramático. Ele acrescenta que “tem que se dar serviços às grandes cidades da Amazônia”, um assunto também essencial. Só depois menciona o Zoneamento Econômico Ecológico (ZEE) e o ‘pagamento por serviços ambientais’, algo que ele chama de “o futuro” desta região. Sua posição mostra estar em consonância com o plano de governo, onde não existe uma seção especial para o tema ambiental, que está quase desaparecido no meio setor ‘agricultura’.

Neste documento, existem duas menções explicitas sobre a biodiversidade. Uma refere-se a “colocar ao Peru como potência mundial” em suas aplicações, mesmo não dizendo como fazer isso. E outra onde se fala de uma Lei de Proteção da Biodiversidade, que tampouco é detalhada. Este tema, somando, também flutua na boca dos outros partidos em campanha, embora sempre em segundo lugar.

Kart Burneo, por exemplo, Chefe do Plano de Governo de Peru Possível (PP), o partido que aparece na frente nas pesquisas (mais de 25% em várias) e que leva como candidato ao ex-presidente Alejando Toledo (2001-2006), fala primeiro de ‘conectividade’. Segundo ele, isso é o que impede o “crescimento contínuo da Amazônia”. Ele também é partidário de uma reorientação do investimento público em algumas regiões da Amazônia peruana.

Para que? PP é um pouco mais explícito em seus planos. Em seu programa de governo anuncia o propósito de “pôr em valor a biodiversidade, incorporando a valoração do capital natural às contas nacionais”. Também menciona, sem detalhar, a proposta de “pagamento por serviços ambientais em zonas andinas e amazônicas” e um “programa de conservação de florestas, com o apoio das comunidades amazônicas”. Também fala de uma “Expedição Botânica à Amazônia”, do reflorestamento de um milhão de hectares de florestas andinas e amazônicos até 2016, do ‘ordenamento da posse de terras e manejo sustentável dos 15 milhões de bosques inundáveis da Amazônia peruana’. Igualmente, é anunciada a criação de uma nova entidade: SERFOR (Serviços Florestais, autoridade integral do manejo dos florestas).

Burneo diz que a proposta do PP não é de crescimento e sim de “desenvolvimento”, com uma melhor distribuição dos ingressos e uma “preservação dos equilíbrios ecológicos”. A “licença social” para os investimentos na Amazônia também aparece nos planos deste grupo que pretende ocupar o poder Executivo pela segunda vez. Carlos Loret de Mola, ex-presidente do Conselho Nacional do Ambiente (CONAM), a entidade antecessora do Ministério do Ambiente (MINAM), figura entre seus especialistas.

A candidata Keiko Fujimori, de Fuerza 2011, filha do ex-presidente autocrático Alberto Fujimori, e que está entre os primeiros nas pesquisas eleitorais, propõe “manejo sustentável dos ecossistemas”, “pagamento por serviços ambientais” e “compensação por serviços ecossistêmicos”. Não explicita a maneira de executar tais planos. Rafael Rey, da equipe de seu Plano de Governo, apontou à reportagem que “os planos para a Amazônia são os mesmos que para o resto do país”, um alcance também insuficiente.

Algo similar ocorre com a Alianza por el Gran Cambio (Aliança para a Grande Transformação), o partido liderado por Pedro Pablo Kuczysnki, ex-presidente do Conselho de Ministros e ex-ministro de Energia e Minas, que vem em quinto lugar, mas com tendência de subir. Entre seus “25 compromissos para um Peru sem pobreza e com oportunidades para todos” só um se refere ao meio ambiente. É o que propõe “combater os abusos contra o meio ambiente através da criação da Polícia do Meio Ambiente, financiado com o Canon”.

Como mostrou o Dr. Marc Dourojeanni aqui em OEcoAmazonia, as ideias deste candidato estão bastante centralizadas na criação de infraestrutura –estradas, por exemplo- continuando com os grandes investimentos de exploração petrolífera. O componente indígena, vital para uma política nesta região, está ausente, e inclusive, nem foi mencionado por Pablo Secada, seu Chefe de Plano de Governo no debate realizado na quinta-feira, 17 de março, em Lima.

Por último, o Plano de Governo de Ollanta Humala, candidato de Gana Peru, que está em quarto lugar nas pesquisas (14% com tendência de subir), menciona a questão amazônica em vários pontos, até de modo mais complexo. Fala-se, por exemplo, da luta contra a extração ilegal de madeira, de limitar a extensão da propriedade na selva ‘segundo a qualidade dos solos’ e é notavelmente insistente no respeito à Convenção 169 da OIT, que estabelece a necessidade de consulta aos povos indígenas.

“Propomos reformar o Estado”, disse Roger Rumrill, responsável do tema amazônico neste partido político. O propósito, segundo ele, é adequá-lo à realidade cultural múltipla do Peru, e também favorecer a soberania, que, em sua versão, tem sido vulnerada nos últimos anos pela presença de grandes capitais e a atividade extrativa. De fato, este partido parece colocar uma maior ênfase na conservação da biodiversidade, contando com os conhecimentos tradicionais e uma política estatal.

Contudo, nas medidas concretas que seriam tomadas, existe ainda certa ambiguidade, talvez própria do debate amazônico, e que parece mais intensa nos outros partidos políticos. Na verdade, o tema não tem um grande peso na campanha, que está centralizada demais nas infraestruturas. E não parece ter surgido ainda o candidato ou candidata que junte em uma só proposta a possibilidade de explorar racionalmente os recursos naturais com o desenvolvimento sustentável dos povos e os ecossistemas amazônicos.

MAIS PRODUÇÃO QUE EXTRAÇÃO

“Devemos promover uma mudança de uma cultura de extrativista para uma cultura de conservação produtiva”, diz Luis Campos Baca, diretor do Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP), a mais prestigiosa entidade dedicada a explorar e buscar alternativas para a região. Frente ao processo eleitoral, o alto funcionário aponta bem, e oferece dados e propostas altamente atendíveis.

De acordo com ele, a Amazônia – que abrange cerca de 70% do território peruano - é ‘hiperdiversa’. Abriga, por exemplo, 200 tipos de florestas, 300 espécies de árvores em um único hectare, 2000 espécies de plantas, 55 espécies de formigas, 54 espécies de abelhas e vespas, 200 espécies de aranhas, 41 espécies de caracóis, 66 espécies de anfíbios, 48 espécies de répteis, 200 espécies de aves, 100 espécies de mamíferos.

“Nossa biodiversidade – acrescenta Campos Baca – abastece de alimentos e em Iquitos (a maior cidade amazônica no Peru) está a farmácia naturista mais rica do mundo. Tem 150 espécies medicinais”. O assunto, continua, é “diversificar nossas atividades produtivas para reduzir riscos de investimento e promover os bionegócios com valor agregado, com produtos que já contam com tecnologia desenvolvida pelo IIAP”.

Alguns destes produtos já têm uma demanda no mercado: as frutas nativas como a castanha, o cedro, o mogno, o cacau, o café, a amêndoa lopo. O peixe também teria possibilidades, já que se consomem toneladas na Amazônia, assim como os produtos florestais como o látex, os óleos, as fibras, as raízes, as cascas, as sementes. O camu-camu, por citar um caso emblemático, contem 20 vezes mais de vitamina C do que a laranja. Quase não teria adversário no mercado.

Campos Baca afirma que, para por em valor tudo isso, o Estado deve “consolidar as cadeias produtivas, promover a investigação, para contar com bases técnicas e científicas, e promover adequadamente o uso do território amazônico com inclusão social. Protegendo, por exemplo, os conhecimentos tradicionais e a grande riqueza cultural dos povos indígenas”. Escutarão isso os candidatos?





 
Ramiro Escobar é jornalista especializado em temais internacionais e ambientais. Atualmente é colunista do diário La República e colaborador, no Peru, das revistas Poder, Quehacer e da agência Notícias Aliadas. No exterior colabora com o diário El País da Espanha e o portal ((o))eco Amazonia do Brasil. É professor de Comunicação, Política e Jornalismo de Opinião na Universidade Peruana de Ciencias Aplicadas (UPC).


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