Tambogrande marcou o ponto de partida. Desde que no ano 2000 os moradores desta comunidade no norte do Peru se organizaram em uma consulta popular para bloquear as atividades minerais da empresa Manhattan, mais episódios foram acontecendo.

Sete anos depois, numa consulta popular nos municípios de Pacaipampa, Ayabaca e Carmen de la Frontera, a comunidade piurana (do departamento de Piura) se perguntava sobre o projeto Rio Branco. Você quer mineração nas suas terras? Exatos 94,53% da comunidade gritaram que não. No dia 16 de setembro, dava-se um passo mais: as províncias de Ayabaca, Huancabamba, Jaén e San Ignacio se declaravam áreas livres de mineração.

O Peru viu como nos últimos anos, e graças às políticas de Alan García, as concessões minerais dispararam, até cobrirem 16% do território. No norte do país, as concessões nestas quatro províncias ocupam até 25% da área e, se iniciados projetos de exploração, criarão um grande distrito de mineração.

O Projeto Rio Branco, iniciado com capital britânico e atualmente em mãos do complexo chinês Zijing representa todos os medos da população. Ecologicamente, a mina ameaça a agricultura da zona e as bacias hidrológicas do Amazonas. “Aqui em Ayabaca nos estamos em um paraíso, em um ambiente tão saudável, onde nascem as águas puras e limpas da cordilheira. Decidimos que não aceitamos a mineração aqui”, expressa Natividad Vicente Gonza, ex-vice-presidente da Federação Provincial de Rondas Campesinas da província de Ayabaca.   

Ela não exagera quando chama esta região de paraíso. Os Andes tropicais são espaços de extraordinária riqueza biológica – incluem os frágeis ecossistemas da planície e as florestas de neblina --, regulam a água de toda a região e formam parte da cabeceira do rio Amazonas, bem comum de toda a Humanidade. Além disso, a empresa chinesa foi multada recentemente pelo desastre ecológico causado no rio Ting no verão passado; o maior dos últimos anos no país asiático. “Se são capazes de contaminar dessa maneira dentro do seu próprio país, é muito provável que não tenham nenhuma consideração de fazê-lo em um país que não é seu, como o caso do Peru e o projeto mineral Rio Branco”, diz David Velazco, diretor da Fundação Ecumênica para o Desenvolvimento e a Paz (Fedepaz). 

Essas razões ecológicas, mais outras de caráter social, legal e econômico, são as que motivaram a luta das comunidades das quatro províncias. Elas, apoiadas pelas organizações nacionais Frente pelo Desenvolvimento Sustentável da Fronteira Norte do Peru e Muqui (Rede de Propostas e Ação), e a internacional CATAPA (Bélgica) criaram a campanha internacional "Mining in Paradise? No-go zones for mining", e levaram até o Congresso sua proposta de “áreas livres de mineração” apoiados pelos congressistas Marisol Espinoza e Wiber Cabrera, no último dia 25 de outubro.
 
A mineração multiplicou os conflitos sociais no Peru e gerou novos debates na população. Onde realizar a mineração? Todos os territórios são lícitos para ser explorados? Como estimular o desenvolvimento produtivo equilibrado? Como protegemos as bacias hidrográficas e os territórios com frágeis ecossistemas? Que papel tem os governos regionais? Esses são temas que até pouco tempo não apareciam na agenda dos políticos.

Nas últimas eleições municipais e regionais peruanas no dia 3 de outubro alguns governantes já se pronunciavam sobre o assunto. “Qualquer projeto precisa de uma licença social para poder operar e quem a fornece é o povo. Neste momento, este projeto mineral não caminha”, afirmava Javier Atkins em uma entrevista, logo após ser eleito como o novo presidente regional de Piura. A Defensoria do Povo determinou em 2006 que o projeto seria motivo de violação à propriedade dos camponeses, ao direito a determinar como explorar uma propriedade e ao direito a informação sobre o desenvolvimento das atividades.

Preservação do meio ambiente e os direitos dos povos indígenas são temas comuns para toda a América Latina e, especialmente para os países que têm territórios na região Amazônica. Os cidadãos perguntam como devem aproveitar as terras e que territórios precisam ficar livres de exploração. E os políticos que os ouvem, como aconteceu no Brasil com a Marina Silva, começam a ter cada vez mais força.

Trata-se de aceitar que outro desenvolvimento alternativo econômico seja possível. “Trazem desenvolvimento, mas só para eles, para empresa, não para nós. Para nós eles deixam a destruição, a contaminação”, denuncia Pascual Rosales, ex-presidente do Comitê Executivo Provincial de Rondas Campesinas de Ayabaca. Na zona do projeto Rio Branco existe uma série de cooperativas ecológicas e associações de produtores, agrícolas e pecuários que promovem um desenvolvimento alternativo e sustentável. Existe também uma possibilidade de ecoturismo em uma zona tão rica como os Andes tropicais peruanos; opção econômica que se perderia, sem dúvida, com o inicio das explorações minerais.

Aretha Francis
é jornalista catalã, pós-graduada em Comunicação de Conflitos e da Paz. Trabalhou na imprensa espanhola e para jornais italianos. Atualmente vive na Bélgica e participa da comunicação da campanha "Mining in paradise? No-go zones for mining".

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