Rachael van der Kooye
14 de Março de 2011
Ativistas ambientais no Suriname estão bem adiantados na questão da plantação de mangues ao longo da costa do Atlântico nos locais onde foram removidos e onde o mar penetra. É dessa forma que pretendem proteger o país do aumento do nível do mar. Eles encaram essa proposta como uma solução mais eficaz do que os diques que o Ministério de Obras Públicas pretende construir ao longo da costa de leste a oeste. Ele já começa no distrito de Coronie, onde já está ocorrendo erosão. Por trás do dique de barro, os ambientalistas estão agora plantando manguezais. Eles querem provar ao governo que os manguezais são a melhor defesa costeira contra o aumento do nível do mar e esperam que os diques tenham sido aparentemente construídos em vão.
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Os manguezais ocorrem desde 30 graus latitude norte até 30 graus latitude sul, em ambos os lados da linha do Equador. Eles estão adaptados ao ambiente marinho das costas lamacentas dos países. Pântanos, tanto de água doce como de água ligeiramente salgada, são comuns a essas florestas. Os manguezais não somente servem como proteção na linha costeira, como também são especialmente importantes como locais de procriação e alimentação da fauna marinha. Durante os invernos no hemisfério norte, eles servem como valiosos pontos de alimentação para os pássaros migratórios costeiros. Os manguezais são o habitat de camarões, caranguejos, tigres, macacos e muitos invertebrados, tais como abelhas, formigas e caramujos. Eles também agregam valor à pesca industrial de pequena escala ao longo da costa e ao mel colhido nessas regiões, além de também servirem como estímulo ao ecoturismo, educação e ciência.
Haydi J. Stein Berrenstein é uma bióloga conservacionista que em breve vai se graduar na especialidade de manguezais. Ela passa boa parte do seu tempo nessas florestas na coleta de dados científicos. “Para muitas pessoas, as florestas de manguezais de pântano são locais desagradáveis conhecidos por terem muitos mosquitos, abelhas e o odor característico de sulfato de hidrogênio e metano da lama que exala o odor parecido com o de ovos podres. Porém, suas raízes especiais protegem a linha costeira da erosão. Os manguezais também absorvem a maresia, protegendo o interior do país. É uma “obra de arte integrada” que a natureza montou.
O manguezal surinamês
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O manguezal do Suriname é um dos mais importantes e menos degradados do mundo. Esta floresta ocorre ao longo de toda a costa, em canais de rios e estuários, bem como na água salobra das áreas costeiras. Ela forma uma fronteira natural como o Oceano Atlântico, retendo o lodo – principalmente derivado dos rios Amazonas e Orenoco, e é transportado pela Corrente da Guiana – por entre suas raízes. Dessa forma, ele cria um habitat valioso e estabiliza o acúmulo da linha costeira. “O lodo não é terra firme”, explica o Professor Siewnath Naipal, que é conferencista sobre Infraestrutura na Universidade Anton de Kom, do Suriname. “Ele se move com o fluir da água – embora a uma velocidade mais lenta – e exerce uma ação de frear esse fluxo, permitindo que a força da água seja reduzida e dessa forma também a erosão costeira. Os manguezais, dessa forma, encontram espaço para continuar expandindo. Com a passagem do tempo, o solo passa por um processo de maturação, endurece e vai se tornar possivelmente terra firme.” A universidade procura investir nesta característica dos manguezais através do seu replantio nos locais de onde foram removidos.
Vulnerável ao aumento do nível do mar
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A plantação de manguezais é uma das medidas propostas pelo Plano de Ação do Clima do Ministério do Trabalho, Desenvolvimento Tecnológico e Meio Ambiente. De acordo com um estudo do Banco Mundial de 2007, o Suriname é um dos dez principais países que estão em situação de maior vulnerabilidade em relação ao aumento do nível do mar. O país é especialmente vulnerável porque sua área costeira é muito baixa e justamente nesta zona a maior parte de sua atividade econômica é desenvolvida. A maioria da população também vive nessa região, bem como os melhores solos para agricultura. “A expectativa é de que caso o governo não tome nenhuma medida, a erosão costeira irá aumentar com danos à costa e habitats serão perdidos com a chegada de enchentes trazendo a destruição da infraestrutura de residências ao longo da costa”, diz o professor Naipal. Ele pretende plantar manguezais, juntamente com seus alunos, atrás do dique que o governo está construindo no distrito de Coronie. O fundo para o meio ambiente Suriname Conservation Foundation (SCF) disponibilizou 1.4 milhões de dólares para esta tarefa.
Henk Brandon, à frente do Desenvolvimento de Parcerias Estratégicas da SCF, está convencido que o manguezal é a melhor proteção costeira. “Acreditamos que não proteger a costa com os manguezais significa a perda de muitos grandes locais de reprodução, causando até o desaparecimento de camarões pescados ao longo da costa. As aves da América do Norte também se afastarão. O Suriname está em sua rota e elas preferem passar o inverno nesse país. A Guiana Francesa exibe uma linha costeira rochosa e a Guiana construiu um quebra-mar removendo grande parte de seu manguezal. Caso os locais de procriação desapareçam, as aves terão de seguir para a Venezuela ou para a costa leste no Brasil.”
Experiências universitárias com plantas do manguezal
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Para ver o que acontece quando se planta manguezais, os parceiros da entidade têm realizado experimentos com duas mil e quinhentas plantas do manguezal que foram plantadas de diferentes maneiras e em diferentes tipos de solo: lama macia, lama endurecida, argila, solo para vasos, com e sem ancoramento. Eles então observam o comportamento dessas plantas. “Em seis meses, ficou claro que algumas plantas atendem a certos critérios, e desse modo sua sobrevivência no mar é elevada”, afirma o Professor Naipal. É dele o projeto de plantio dos manguezais em nome da universidade. O experimento foi bem sucedido e seus parceiros estão agora prontos para o projeto piloto, onde a empresa Phyto-Tech NV fornecerá quinhentas mil plantas parwa da espécie Avicenia germinansis. Após a entrega, os alunos farão o plantio em estufas e caso atendam aos critérios, serão transferidas para plantio ao longo da costa. “Se forem bem sucedidas, outros locais ao longo da costa onde os manguezais foram removidos virão em seguida”, diz Naipal. De acordo com ele, o plantio de manguezais é tanto uma medida de adaptação como de atenuação dos efeitos. Durante seu crescimento, os manguezais absorvem CO2 e são a melhor defesa contra o aumento do nível do mar.
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Rachael van der Kooye é jornalista freelancer no Suriname. Nos últimos quinze anos ela se especializou na área ambiental e questões de desenvolvimento, contribuindo para uma maior conscientização entre o público surinamês, razão pela qual foi diversas vezes premiada. Agora ela é palestrante no departamento de jornalismo da Academia de Artes Superiores e Educação Cultural.