Rachael Van der Kooye
04 de Maio de 2011
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Suriname, o menor país independente da América Latina, é uma reflexão moderna sobre o passado do mundo e sobre o futuro do nosso planeta. Localizado no norte do Brasil, na costa do Atlântico, sua população de meio milhão de habitantes é uma das mais diversificadas do mundo, cultural e etnicamente. Seus habitantes incluem javaneses, hindus, chineses, libaneses, judeus, holandeses, crioulos e os chamados “negros do mato”, ou seja, descendentes de escravos fugidos, além de povos indígenas. Na última década, grupos de haitianos e brasileiros se juntaram a eles, sendo em sua maior parte garimpeiros que formaram sua própria comunidade ao norte da capital Paramaribo.
Aproximadamente 90% da população do Suriname vivem na costa, principalmente na sua capital. Paramaribo é conhecida como uma das cidades mais bonitas do Caribe. Seu centro histórico é uma combinação do estilo arquitetônico colonial da Holanda com o chamado Crioulo de Nova Orleans e figura na Lista de Patrimônio Mundial da UNESCO. Na porção mais ao sul do Suriname, 80% do território consistem de floresta tropical praticamente intacta, contendo centenas de espécies endêmicas.
A história do Suriname uniu os vários grupos populacionais. Hoje os crioulos e os negros do mato são descendentes de escravos africanos trazidos ao país pelos colonos ingleses e holandeses para trabalhar nas cultura de algodão, açúcar, milho e extração de madeira. A escravidão foi abolida em 1863. Após essa data, trabalhadores contratados da Indonésia, Índia e mais tarde da China foram enviados de navio para o Suriname para servir nas plantações. Judeus, holandeses e libaneses são os descendentes dos colonos. Os povos indígenas, que inicialmente foram usados como escravos, lutaram por sua liberdade e se retraíram para as florestas. Os chamados negros do mato que puderam escapar da lida nas plantações utilizaram corredeiras e quedas d’água como refúgio, locais em que os colonos teriam dificuldade em achá-los. Hoje esses descendentes de escravos e os povos indígenas vivem no interior, que representa 80% do país.
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Os diferentes grupos étnicos vivem em paz um com os outros. Eles pertencem às grandes religiões do mundo, como o hinduísmo, judaísmo, islamismo e o cristianismo, mas mesmo assim vivem em harmonia. Isto se expressa simbolicamente pelo fato de que uma mesquita foi construída bem ao lado de uma sinagoga. Em dias importantes, todos os líderes religiosos se encontram para debater questões éticas e morais. Eles estão unidos em seu Conselho Inter-Religioso. Todos os grupos étnicos preservaram suas características culturais do país de origem de seus ancestrais, bem como dos seus primeiros dias no Suriname.
Área de invernagem mais importante da América do Sul
O Suriname consiste em uma área costeira, um cinturão de savana, e um interior coberto com floresta tropical. O litoral tem extensas áreas descobertas pelas marés, conhecidas como mudflats, manguezais, lagoas e pântanos, que são muito ricas em espécies de aves. Nos anos 80, o Canadian Wildlife Service fez diversas pesquisas aéreas por toda a costa da América do Sul e contou mais de dois milhões de aves costeiras migratórias da América do Norte que voam até o Suriname para invernarem. Garças, íbis e cegonhas vêm em seguida, totalizando algumas centenas de milhares de aves. Mais de 100 espécies delas dependem totalmente deste tipo de pântano costeiro. Quase 80 espécies são aves aquáticas propriamente ditas. Assim sendo, o Suriname ocupa um lugar especial nos pântanos costeiros da América do Sul.
A costa surinamesa é muito fértil e de longe a área mais importante para as aves costeiras da América do Norte poderem invernar na América do Sul. Muitos pântanos do Suriname foram incluídos na “Lista Ramsar de Áreas Pantanosas de Importância Internacional” (Convenção RAMSAR de 1996 e 1997). Em 1989, a Coppename Monding Nature Reserve foi declarada como “Reserva Hemisférica” dentro da Rede de Reservas de Aves Costeiras do Hemisfério Ocidental (WHSRN).
Além de aves, tartarugas marinhas em risco de extinção como a tartaruga-gigante ocorrem na costa do Suriname. O número de tartarugas gigantes vem diminuindo dramaticamente. Elas são a espécie de tartaruga sob maior risco em todo o mundo. Elas sobreviveram 100 milhões de anos de mudanças climáticas e impactos de asteróides, mas vão se tornar totalmente extintas nos próximos 10 ou 20 anos se não houver uma cooperação internacional visando o combate a esse declínio dramático. No mar, a indústria da pesca global é a sua maior ameaça e em terra sua sobrevivência está ameaçada pela destruição de suas áreas de desova e pela exploração comercial de seus ovos. A tartaruga-gigante pode chegar a até aproximadamente 2.8 metros de comprimento e 1.8 metro de largura, e a pesar uma tonelada. Ela pode mergulhar até 804 metros de profundidade. Elas procriam em quatro países diferentes, movimentando-se pelas águas territoriais de muitos outros países, nadando em águas internacionais onde a proteção é limitada. Assim que alcançam a costa do Suriname, elas botam seus ovos com total liberdade porque estão protegidas.
O cinturão de savana do Suriname é uma área de cerca de 12.000 km2 nivelado com o cenário de elevações suaves, de 10 a 100 metros acima do nível do mar. Ele forma um cinturão contínuo por todo o país e consiste de areias não férteis, tanto esbranquiçadas como amareladas, além de argilas arenosas. O que mais chama a atenção são os sedimentos que ficaram expostos e passaram por intenso alvejamento, resultando em uma areia branca e áspera. Os trechos de areias brancas são os locais preferidos para os assentamentos Ameríndios (aruaques e caraíbas), espalhados ao longo de pequenos riachos.
Escudo de espécies endêmicas e serviços ambientais
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O interior do Suriname está localizado sobre o Escudo das Guianas, uma das formações geológicas mais antigas da Terra, que se estende por todo o país, e mais Guiana Francesa, Guiana, Venezuela, Brasil e Colômbia. A biodiversidade neste planalto é extremamente rica, onde se estima que haja 20 mil espécies de plantas, das quais 35% (ou 7 mil) endêmicas, tornando esta região uma das três áreas selvagens tropicais mais ricas do planeta. O Escudo das Guianas é de enorme importância para a população mundial devido ao serviço biológico proporcionado pelos seus ecossistemas. É também uma região onde há muita vida selvagem que não pode ser encontrada em nenhum outro lugar na Terra. Isto é particularmente verdadeiro para o Suriname. A floresta amazônica do país consiste de uma biodiversidade impressionante com locais onde nenhum homem jamais pisou. A floresta absorve mais dióxido de carbono do que o país emite e, por esse motivo, o Suriname pode ser chamado de um país neutro em relação ao carbono. O dióxido de carbono é liberado na natureza quando as florestas são abertas com clareiras e, quando isso acontece, contribuem com as mudanças climáticas. Por isso, a orientação do governo tem sido a conservação da floresta e sua biodiversidade.
O governo já declarou como áreas protegidas cerca de 14% de seu território. A maior reserva é a Reserva Natural do Centro do Suriname, cobrindo 1.6 milhões de hectares. Ela está, no entanto, aberta para pesquisa científica e ecoturismo. A origem de todos os rios de água doce de grande porte do país está nessa região. A Conservação Internacional do Suriname tem dessa forma feito o máximo para manter a reserva na lista de Patrimônios Mundiais da UNESCO.
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Rachael van der Kooye é jornalista freelancer no Suriname. Nos últimos quinze anos ela se especializou na área ambiental e questões de desenvolvimento, contribuindo para uma maior conscientização entre o público surinamês, razão pela qual foi diversas vezes premiada. Agora ela é palestrante no departamento de jornalismo da Academia de Artes Superiores e Educação Cultural.