Maria Emília Coelho
Há cinco anos, a colombiana Cielo Goméz deixou Medelín para se especializar na comida amazônica. Encontrou em Letícia, cidadezinha de 40 mil habitantes na margem esquerda do rio Solimões, na tríplice fronteira Colômbia-Brasil-Peru, um laboratório perfeito para seus experimentos. “As cores e os cheiros são muito fortes aqui. As frutas são mais gostosas porque são menores, o sabor fica mais concentrado. O Abacaxi é bem doce na Amazônia”, conta a chef.

Ela embrenhou-se na floresta e passou dois meses na cozinha das aldeias trocando conhecimento com as nativas.“Os indígenas usam muito gengibre. As comunidades cheiram a gengibre”, explica Cielo, que hoje comanda o restaurante Kasabe, em Letícia, preparando pratos que misturam sabores da culinária moderna e indígena. O nome do lugar faz referência a uma das principais comidas dos povos indígenas amazônicos, chamada no Brasil de beiju. O kasabe, ou cazabe, é uma espécie de pão feito com massa à base de mandioca. “Parente come kasabe com sal do mato”, afirma a indígena Maria de Nazaré.

Cielo conta um dos pratos que serve em seu restaurante. Trata-se do Kasabe del Rio, com pedaços de peixe, verduras da região e queijo. Para acompanhar, serve tucupi e molho apimentado feito com formigas saúvas. “Dependendo da temporada de chuva o tucupí muda de sabor. Aprendi a fazer com as índias huitotos e hoje compro as formigas das suas comunidades”.

As formigas são vendidas em um mercado próximo ao porto da cidade. Lá também é possível encontrar outro ingrediente curioso da culinária indígena, o mojojoy. Conhecido em toda a Amazônia com diferentes nomes, o mojojoy é uma larva que dá nos troncos caídos do buritizeiro. Nos restaurantes Várzea e Tierras Amazônicas é servido assado, frito e vivo também, para quem quiser encarar a tradição. Delícia Ticuna, uma senhora indígena com um nome mais curioso ainda, diz que come a larva e acha uma... delícia. Em Letícia, a culinária indígena surpreende pelo sabor e pela originalidade.


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