Quem chega ao Parque Nacional da Amazônia, pela entrada principal, se impressiona com o panorama que se abre no mirante logo em frente: uma imensidão de colinas cobertas por florestas. Em baixo, corre o rio Tapajós. Nessa época do ano, ele está cheio. Mesmo assim, pontas de pedra cortam seu leito, espumando o azul desse velho rio que vem do cerrado.
O Parque Nacional da Amazônia é habitado por cerca de 425 espécies de pássaros e 103 de mamíferos, de acordo com os dados mais recentes. Sua área estende-se por mais de um milhão de hectares entre o Pará e Amazonas, no cruzamento entre a Transamazônica e a BR-163.
Fui convidado a conhecer o parque pela Amiparna (Associação de Amigos do Parque Nacional da Amazônia), OnG fundada com recursos da Conservação Internacional (CI) e gerenciada por moradores Itaituba (PA).
A Amiparna organizou um passeio com alunos do ensino médio de Itaituba, cidade a 65 km do parque. A maioria nunca tinha estado ali e alguns nem se quer tinham feito uma trilha pela floresta – apesar de morarem no coração da Amazônia.
Claudio Rodrigues é aluno do curso técnico de agenciamento de viagens. Essa é a segunda vez que visita o parque. A primeira foi numa aula de campo do próprio curso, um ano antes.
Claudio diz que não conhece ninguém em Itaituba que frequente a floresta por lazer. A cultura local, segundo ele, está mais ligada nas praias de rio da região – com cerveja e um bom peixe assado na brasa.
Floresta distante
Penso comigo mesmo se houve alguma vez em que a população urbana da Amazônia teve o hábito de passear pela floresta. Procuro alguma pista nos romances escritos pelos autores da região, como o paraense Benedito Monteiros, por exemplo. Nada encontro.
No século XIX, o escritor Inglês de Souza até que registrou uma razoável memória de sua infância na zona rural de Óbidos (PA). Já as personagens de Milton Hatoum, no livro Dois Irmãos, parecem indiferentes à floresta que isola Manaus. Em Mad Maria, de Marcio Souza, a selva é vista como uma inimiga a ser combatida. Uma cultura que percebesse a Amazônia como lar, só as indígenas e ribeirinhas.
A presidente da Amiparna, Maria Lucia dos Santos, não se conforma com isso. Sabe que a floresta garante qualidade de vida. “mas se você não conhece, não pode preservar”, repete. Professora da rede de educação municipal, ela usa a floresta como tema transversal em suas aulas.
Antes do começo da caminhada, os guias da Amiparna sensibilizam os jovens para o que vão ver no caminho. ”Não precisamos encontrar com os animais para os conhecer melhor. Observando suas pegadas, restos de alimento e até as fezes, conseguimos informação suficiente para introduzi-los aos alunos”, explica Edvilson Conceição, instrutor da Amiparna.
Cerca de meia hora por uma trilha de floresta fechada, chegamos a um exemplar centenário de cedroarana, cujas raízes se espalham como tentáculos mata adentro. Trata-se de um remanescente da floresta primaria que ocupava aquela região antes de as máquinas cortarem a Transamazônica.
Com a construção da estrada, nos anos 70, a floresta foi bastante degradada. Porém, com a criação do parque, ela vem se regenerando. Pela altura da copa fechada das árvores e a largura de seus troncos (tudo com cerca de 40 anos) dá para perceber a força que a floresta tem para se revitalizar.
Segundo os biólogos que estudam a flora da região, esse crescimento rápido talvez seja favorecido pelo ciclo das águas do alto Tapajós. E também pelo fato de a característica fechada da floresta ajudar na formação de nuvens e precipitações. Trazendo mais água para a região.
De volta para o acampamento, decido pernoitar no parque. Armo minha rede no mirante enquanto a tarde cai, mudando a cor do leito do Tapajós. Um vento frio vindo pela calha do rio começa a gelar os ossos. Nem os mosquitos suportam.
Os estudantes se vão. Permanecem no parque apenas os vigias terceirizados, que, na falta de analistas ambientais, tentam controlar quem entra e sai da unidade – pelo menos pela porta da frente.
A chefe da unidade Maria Lucia Carvalho, do quadro de carreira do Instituto Chico Mendes de Conservaçao da Biodiversidade (ICMBio), reconhece as más condições do Parna. Seu sonho é transformá-lo no motor do turismo de selva na região.
Mas por enquanto, isso é só um sonho. Com as condições atuais, ela prefere nem cobrar ingresso dos 400 visitantes que o parque recebe por ano, quase todos pesquisadores.
Abnegada, ela aposta nos recursos de compensação ambiental para aprimorar sua gestão. Espera desde que assumiu a chefia cerca de R$ 1,5 milhão para investimentos na infraestrutrua turística.
O problema é construir essas melhorias e depois a hidrelétrica inundar tudo. Isso porque, uma das cinco barragens do Complexo do Tapajós, previsto no PAC, deverá ser construída naquelas corredeiras, inundando parte do Parque Nacional da Amazônia.
Segundo Maria Lucia, que teve acesso ao projeto das hidrelétricas, além das áreas naturais, cerca de 120 km da Transamazônica deverão ser inundados. “Do jeito que o projeto está, terá de ser refeita toda a extensão da estrada, entre os km 53 e 165” alerta.
Instante decisivo
Gilberto Nascimento Silva é vigilante do Parque Nacional da Amazônia. Servidor terceirizado desde 1993, passa 15 dias em casa e 15 dias dentro da floresta.
Piauiense, mudou-se para o Pará, no começo da década de 90, seguindo um tio aventureiro, que dizia que faria fortuna com mineração. Um dia, o tal tio chegou em casa com uma foto das árvores gigantes da floresta. Aquilo mexeu com ele. Gilberto largou tudo e seguiu com o tio.
Estabeleceram-se em Itaituba, cidade do alto Tapajós, no Oeste do Pará. Gilberto trabalhou com transporte de ouro, como garçom, em hotéis da região. Mas nada o satisfez.
Um dia ficou sabendo da vaga no parque. Mesmo sem intimidade com armas de fogo, decidiu aceitar. No convívio com a floresta, Gilberto descobriu uma paixão: a fotografia.
Um belo dia, um fotografo inglês perguntou onde encontraria onças. Gilberto falou que costumava avistar uma na curva da estrada, ao raiar do dia.
Às cinco da manha do dia seguinte, lá foram os dois. Na hora exata, como se fosse combinado, a onça parda cruzou a estrada. O fotógrafo, sentado na garupa, nem desceu da moto. Apoiou a lente sobre os ombros de Gilberto, bateu uma única fotografia e pediu para ir embora. Nunca mais deu noticia.
Desde aquele dia Gilberto começou a fotografar também. “Fácil assim, achei que também podia fazer”, brinca. Hoje, tem um acervo de centenas de imagens de animais e plantas do Parque Nacional da Amazônia.
Técnica fotográfica, Gilberto domina poucas. O que sabe, aprendeu com os profissionais que visitam o parque.
Seu diferencial é conhecer os hábitos da floresta. Quando sai para fotografar, não espera contar com a sorte. Vai direto aonde sabe que vai encontrar o que busca. “Cada bicho tem seus horários, o que gosta de comer, a árvore que gosta de ficar”, ensina.
“A ararajuba, por exemplo, pode ser encontrada no final da tarde, nas árvores de murici ou aninhagá” explica. “Tem também uma árvore que ninguém sabe o nome, que dá um coquinho que elas adoram. Ali, sempre elas fazem o ninho”.
No Parque Nacional da Amazônia, ararajubas podem ser avistadas em bandos de até 50 indivíduos. Quando a luz da tarde incide sobre elas, é como se a árvore se cobrisse de flores amarelas.
Já a arara-vermelha se alimenta da bacaba. “Quando alguém se aproxima, ela solta uma alerta. Nessa hora, é melhor recuar e se aproximar de outra forma” garante.
Gilberto admite que ainda não bateu sua foto nota 10. Mas tempo para isso ele vai ter de sobra, uma vez que decidiu que permanecerá o resto da vida no parque. “Conviver com a mata é uma maravilha”.
Para conseguir o clique mágico, ele parece estar no caminho certo. Como os grandes mestres da fotografia, Gilberto aprendeu o segredo: paciência, paciência e paciência.
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Luiz Motta é jornalista e educador ambiental. O foco de seu trabalho é a Amazônia, para onde já viajou diversas vezes, escrevendo para jornais da grande imprensa, investigando para o Greenpeace ou tentando criar canais de comunicação entre o Ministério do Meio Ambiente e a população da região.
Prezado Luiz,
Muito bacana o artigo. Estive no PARNA Amazônia para fotografar no final de 2009 e também fiquei muito impressionado com sua riqueza natural. Fui também acompanhado pelo Gilberto, gente boníssima.
Assistir o nascer do sol sobre o Tapajós do mirante do Parque é realmente mágico.
Infelizmente toda a paisagem está ameaçada pela represa que, pela sua potência, equivalente a metade de Belo Monte, dificilmente ficará apenas no papel.
Deixei minhas impressões e uma galeria de fotos em meu site (www.paisagembrasilera.com) e em breve prentendo retornar ao tópico com uma análise das áreas alagadas pela futura represa.
um abraço,
Charles Young
legal
Marcia 2010-06-23 08:06:20
Muito bom o artigo e legal encontrar você aqui no o eco Luiz. Márcia Muchagata
Parabéns!!!
Marcio Ricardo Ferla 2010-06-23 09:46:20
Muito legal, parabéns pela matéria!!!!
O Parque Nacional da Amazônia é tudo isso e muito mais, a beleza de suas corredeiras, praias tapajônicas, as gigantes arvores, a riqueza de sua fauna e os inúmeros igarapés fazem dele uma das principais Unidades de Conservação da Amazônia.
Minhas saudações também ao vigilante e fotógrafo Gilberto, grande pessoal e conhecedor da floresta!!
Foi o primeiro Parque Nacional criado na Amazônia Brasileira, mas infelizmente hoje sofre com a ameaça de contrução de hidrelétricas, as quais alagariam praticamente toda sua zona de uso público.
Ajudem a preservar este patrimônio natural!!!
Abraços a todos que tiveram a oportunidade de conhecer esta maravilha da natureza!!!! e aos que ainda nao conheceram , nao percam tempo!!!!
Allyne Mayumi Rodolfo 2010-06-23 10:17:40
Parabéns pela matéria e um muito obrigada por ajudar a divulgar as belezas e as ameaças que o incrível Parque Nacional da Amazônia apresenta! Sou bióloga e trabalhei por dois anos nesta unidade de conservação onde pude aprender muito tanto nos aspectos ecológicos quanto sobre os aspectos humanos que a floresta amazônica envolve. Essa experiência é realmente enriquecedora e deve ser vivida por muitas outras pessoas! Lutar pela manutenção da vida no Parque é também lutar pela vida do rio Tapajós, tão ameçada com o complexo hidrelétrico do Tapajós! Resistir é algo que se aprende na floresta, convidamos tod@s a juntarem-se a essa luta!
Alessandro Queiroz IBAMA 2010-06-23 10:23:15
Parabéns aos servidores do ICMBIO (e demais colaboradores)...que com garra e competência conseguem manter os milhões de hectares de floresta nativa amazonica em considerável harmonia com as populações locais.
Maria Lucia Carvalho 2010-06-23 10:31:18
Já enviei prá um monte de gente!!!!!
Todo mundo gostou.
Eu achei bem diferente. Vc escreve com sensibilidade e respeito. Valorizando o trabalho de pessoas simples, como o Gilberto e o pessoal da Amiparna.
Parabéns. Ficou show. Acho que vc vai ficar conhecido da turma....rsrsrsrsrs
Obrigada por tudo!!!!!!!!!!
Leidiane Diniz Brusnello 2010-06-23 10:39:11
Oi Luiz,
Trabalho no Parque com a Lúcia e acabo de ler a sua matéria. Quero agradecer de coração por ter tratado o Parque com tanto carinho, para mim que tenho um amor especial pelo local e trabalho há dois anos no perrengue que é o serviço público para fazê-lo funcionar, ler palavras como as suas trazem muita alegria. As vezes parece que todo nosso trabalho não surte muito efeito, tudo parece impedir que as coisas aconteçam. Quando soubemos da HEs ficamos desolados, eu e dois colegas estamos elaborando um site sobre o assunto e quando ele estiver pronto talvez você possa contribuir com algum texto, o que acha?
Saber de pessoas como você, que vieram e se apaixonaram pelo Parque, é um estímulo a mais para nos esforçarmos para ver este lugar sendo conhecido.
Um agradecimento especial vai pelo texto dedicado ao Gilberto, ele merece mesmo e tenho certeza que ficará muito feliz com o que você escreveu.
Mais uma vez, muito obrigada, seu texto trouxe alegria e ânimo para nós todos!
Abraços,
Leidiane Diniz Brusnello
Parque Nacional da Amazônia - ICMBio
Itaituba/PA
Agradecimentos
Maria Lucia Carvalho 2010-06-23 10:45:40
Obrigda Luiz, pela sensibilidade com que tratou o PARNA da Amazônia e as pessoas que têm ajudado a preservá-lo.
Obrigado por retratar de forma clara e precisa a ameaça iminente das hidrelétricas.
Obrigada por se importar!
PARNA: guardião de uma floresta extraordinária!
Jossehan Frota 2010-06-24 15:19:12
Gostei muito da matéria. Luiz vc está de parabéns.
Eu trabalho já faz um ano pesquisando as serpentes do Parque e com certeza a floresta oferece muitas informações preciosas para as pessoas (fatores abióticos e bióticos). Precisamos preservar esse extraordinário bioma. Só vamos conseguir preservar se todos nós conhecermos. Espero que logo o Parque esteja em condições para visitação.
Quem também merece parabéns é a equipe do Parque (Mª Lucia, Sales, Leide e outros), pois, os mesmos estão fazendo um ótimo trabalho.
Abraço a todos.
o parque é mágico ,uma apoteose divina
nazareno santos-Itaituba 2010-06-26 01:05:29
De fato temos um verdadeiro garimpo inexplorado com suas riquezas na fauna e flora que não são explorados com sabedoria.Sou escritor, jornalista e ao longo dos meus 23 anos de região, percebo a triste indiferença que existe por parfte dos nativos em relação ao Parque, que infelizemnte não está imune aos predadores porque o IObama local não consegue dar o mínimo de estrutura de trabalho aos funcionários.A exploração turística é zero, os estrangeiros que chegam ao Parque o fazem por iniciativa própria.Mas tirando esses aspectos negativos o Parque é fantástico, a floresta tem um toque poético nos sons dos pássaros como uma orquestra, entrar na floresta é absorver uma plenitude de paz indiscritível...A materia do Luiz é excelente, bem elaborada, retratando uma realidade local quanto a valorização do Parque.
Parabens Amigos
Marcilio C. Jardim 2010-06-27 12:09:01
Amigos parabens pela materia e pelo trabalho de conscientização da nesessidade de se preservar a nossa Amazônia, Abraços
Parabéns!
Marcio Sergio Marafon 2010-06-28 08:16:03
Parabéns pela matéria, ajudando a divulgar o trabalho realizado no Parna, lugar exuberante, abraços aos amigos de Itaituba-PA, abração pro Gilberto e parabéns, também pro Edson, pro Jacaré e moçada dos vigilantes, também a Lúcia, Sales, Leidiane, todas as pessoas que tive o privilégio de conhecer quando estive lá, abraços com muita saudade, saudações Tapajônicas ä todos. Parabéns pela matéria, abraço!
Marcio Sergio Marafon 2010-06-28 08:20:19
Abração também pra Mauymi, Márcio e Carla, João...enfim ä todos esses irmãos espalhados por este Brasil gigante, saudades da Amazônia!!
Pena que não conheço
silvia 2010-07-05 18:53:46
A matéria só me fez sentir uma alienada da floresta. Que inveja, Motta!!!
E parabéns pelas empreitadas: a da floresta e a do mundo dos freelas!!!
Gratificante!!!
José Sales de Sousa 2010-07-15 22:28:57
Em, 15/07/2010
Obrigado Luiz,vc.nem imagina a satisfação que vc fez para os funcionários do ICMBio/PARNA DA AMAZÔNIA,principalmente para mim, que quase perdir minha vida zelando por este paraiso. Espero que as pessoas leem esta matéria e se sensibilizem com o seu vocabulário e que venham conhecer e ter certeza do que você escreveu, sobre o PARQUE nACIONAL DA AMAZÔNIA.
Anônimo 2010-07-17 13:30:06
Parabéns pela reportagem!
Também sou Analista Ambiental do ICMBio em Itaituba e acompanho de perto a luta dos colegas pela preservação desse recanto da Floresta Amazônica.
São contribuições como a tua Luiz, do Gilberto, dos vigias e servidores do Parque, do Amiparna e outras tantas pessoas que já passaram por aqui que nos enchem de esperança na luta pela preservação.
Parabéns
Simone Albarado 2010-07-19 11:55:55
Linda reportagem! Essa foi uma reportagem consciente e ao mesmo tempo muito sensível. É muito bom saber que existem pessoas que se dedicam a divulgação de trabalhos tão nobres quanto o de Gilberto. E fico orgulhosa de tê-lo trabalhando, e sendo feliz, em uma região tão linda quanto a Amazônia!!!
ótimo
ÉRIKA 2010-08-08 19:29:16
ótima a reportagem tem apoximadamente 3 anos que estou em itaituba e apenas ouço falar do parque .Não imagina que havia toda essa diversidade principalmente no que diz respeito a fauna.
parabens!!